Afinal não passaram

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 02 Maio 2019
Afinal não passaram
  • Eduardo Luciano

 

 

As eleições gerais espanholas, cujo resultado se saldou por uma derrota das forças da direita mais ou menos neo franquista, deram nos últimos dias o mote para a discussão sobre o real significado do crescimento dos fascismos de diversas matizes.

Afinal estão a crescer ou apenas a ter mais visibilidade? Os apoiantes do VOX descobriram agora as virtudes do sanguinário Francisco Franco ou apenas ganharam coragem para deixar de se fingir democratas debaixo da capa do PP?

Talvez olhando para as declarações de um dirigente do CDS, que afirmou que o VOX não era de extrema-direita e tinha mesmo lugar na sua família política, se elegesse deputados para o Parlamento Europeu, se consiga perceber melhor o fenómeno de visibilidade de ideias fascistas com a mal disfarçada simpatia da comunicação social dominante.

Claro que não podemos ignorar as diversas razões e circunstâncias que levam gente insuspeita de repente a votar em partidos e dirigentes políticos neo fascistas, mas em Portugal e Espanha os novos fenómenos de visibilidade desta gente tem a ver com o facto de se sentirem hoje mais confortáveis a defender ideias que julgávamos mortas e enterradas.

O dirigente de um partido fascista que se tenta legalizar recorrendo às assinaturas de crianças e falecidos não tinha essa as mesmas ideias quando foi candidato pelo PSD à Câmara de Loures? Terá adormecido social-democrata e acordado salazarista?

Se Nuno Melo abandonar o bem comportado CDS para fundar uma coisa parecida com o VOX ou se se juntar ao Ventura significa que de repente se encantou pelas virtudes da extrema-direita ou já lá estava e apenas despiu o casaquinho democrático?

Foi noticiado que Portugal era uma dos quatro países europeus onde a extrema-direita não tinha assento parlamentar. Será? Se o Ventura, em vez de vereador na Câmara de Loures fosse deputado na Assembleia da República poderíamos continuar a afirmar que a extrema-direita não tinha representantes no parlamento?

O problema não é este sair do armário de alguns, mas a divulgação permanente de ideais e práticas fascistas em programas televisivos, que depois são replicados nas redes sociais que vai engrossando o exército dos que acham que há deputados a mais, democracia a mais e eleitos locais a mais, dos que acham que a justiça deve funcionar à velocidade da luz e que os julgamentos deveriam ser realizados em programas televisivos com a condenação garantida e a pena de morte aplicada na manhã seguinte.

Em Espanha no domingo não passaram, mas percebo como isto está a ficar estranho quando franquistas perdem a vergonha e se assumem orgulhosamente como tal e eu apanho-me a sentir algum alívio com a vitória do PSOE.

O que já não me causa estranheza é que enquanto a CGTP assume a defesa do aumento dos salários e da revisão das leis laborais, o secretário-geral da UGT resolveu colocar o acento tónico do seu discurso no 1.º de Maio no ataque à CGTP e no apelo ao patronato para que defenda o “sindicalismo responsável” (leia-se sindicatos filiados na UGT). Eu diria que o apelo é escusado tendo em conta a origem da criação da UGT.

Até para a semana