Afinal quem está a desertar?

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 23 Novembro 2020
Afinal quem está a desertar?
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Quando o Bloco votou na generalidade contra o orçamento por ser insuficiente para responder à crise que vivemos, António Costa acusou-o de desertar. Mas quem desertou da Esquerda não terá sido o Partido Socialista quando se levantou ao lado do PSD, do CDS, do Chega e da Iniciativa Liberal para chumbar todas as propostas do Bloco de Esquerda para defender os trabalhadores, que não se traduziam em encargos para o Estado, mas repunham alguns dos direitos retirados pela direita aos trabalhadores, agora que é crucial proteger o emprego?

Na 6ª feira passada começou a votação na especialidade do Orçamento de Estado para 2021 e o Bloco apresentou apenas 12 propostas de alteração, concentrando-se no que é essencial: Trabalho, Saúde, apoios sociais.

Destas propostas do Bloco 7 foram votadas 6ªa feira e o PS votou contra todas elas.

Votou contra a proposta sobre a proibição de despedimentos, incluindo de trabalhadores precários ou temporários, pelas empresas beneficiárias de medidas de apoio do Estado, apoios que pagamos todos precisamente para manter o emprego; Votou contra a redução do período experimental, contra a proposta sobre os contratos de trabalho para os trabalhadores das plataformas digitais, que em tempo de pandemia assumiram um papel importante, contra a reposição parcial para 20 dias da indemnização por despedimento … enfim foram todas chumbadas.

Mas a primeira a ser chumbada pelo PS, com a abstenção da direita, note-se, e do PAN, tem a ver com a Saúde: Foi a proposta que dava autonomia aos hospitais para contratar pessoal, não apenas médicos mas também enfermeiros ou auxiliares de acção médica.

Uma medida crucial para as instituições do Serviço Nacional de Saúde, especialmente quando desde o início da pandemia saíram do Serviço Nacional de Saúde 842 médicos e só foram contratados 378 especialistas, e quando dezenas de profissionais de saúde contratados a 4 meses receberam cartas do Ministério da Saúde a notificá-los da caducidade dos contratos, ou seja, a despedi-los em plena pandemia.

E não deixa de ser interessante assinalar que no mesmo dia em que o PS chumbou a proposta do Bloco a Ministra veio à televisão dizer que o Governo ia conceder autonomia aos hospitais para contratação de médicos. Mas nada de entusiasmos, apenas de 3 especialidades e só até ao fim do ano. Tanta “franqueza” deixa-nos a dúvida sobre se autonomia só por pouco mais de um mês não é mais um anúncio “para inglês ver”.

Mas não são apenas os hospitais a necessitar de reforço urgente de recursos humanos.

Os médicos de família estão a acompanhar 95% das pessoas com Covid, num enorme esforço e sobrecarga, quando sabemos que também nos Centros de Saúde há médicos a menos e muitos estão à beira da reforma. A par dos doentes Covid há toda a população a necessitar de cuidados e acompanhamento, e não pode ser descurada.

Foi o Serviço Nacional de Saúde e a dedicação dos seus profissionais que permitiram que fizéssemos face à 1ª fase da pandemia de Covid 19 sem que houvesse mais mortes. Estamos agora a chegar a uma situação crítica e é com o Serviço Nacional de Saúde que teremos de contar para a ultrapassar.

O Governo e o PS não podem escamotear a falta de pessoal médico e de enfermagem e têm de dar respostas fortes, que passam pela contratação de médicos, enfermeiros em condições remuneratórias e de carreira, e boas condições de trabalho que tragam estes técnicos do privado para o SNS. É no Orçamento de Estado que o devem prever.

Esta semana continuará o debate do Orçamento na especialidade e está nas mãos do PS alinhar com a esquerda ou com a direita, dar ou não ao SNS os meios para responder aos grandes desafios da pandemia.

Até para a semana.

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