Alternativa

Crónica de Opinião
Terça-feira, 21 Fevereiro 2017
Alternativa
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Poderia voltar a falar de Trump e das eleições americanas para tratar a “alternativa” como um conceito que tantos procuram agora esvaziar do seu sentido próprio e dar-lhe um sentido que a inclui na postura da não-verdade, versão adocicada de mentira, outra palavra infelizmente já tão banalizada e gasta. Mas o que vou dizer aplica-se também, como uma luva, a situações de pré-eleições, e pode acontecer num concelho perto de si. Não é uma denúncia de situações largamente acompanhadas por gente “batida” nestes assuntos, longe de mim imiscuir-me em festas para as quais não fui convidada. E como todos sabemos, há ausências de que se faz parte previsivelmente desde o princípio em que as festas se organizam e que, inegavelmente de forma coerente, se mantêm até ao arrumar das cadeiras em cima das mesas. Não vale a pena recontar versões de uma história curta em que os intervenientes estejam por aí, e não tenham sido mortos e enterrados, nem que seja com uma “sentida homenagem” como soe dizer-se. E tudo sem tristezas, pois claro, porque como também diz o Povo deste país à beira-mar plantado: “há mais marés do que marinheiros”!

É tão somente minha intenção, aqui e agora, lançar, a quem queira ouvir-me, um alerta. É acima de tudo uma palavrinha que sendo breve tem muito a dizer, palavra da autora, para aqueles que, ainda sempre convencidos de que quem vive activamente no meio dos partidos políticos é “farinha do mesmo saco” (que só entendo e confirmo se a farinha forem os indivíduos da espécie humana, e o saco o caldo da cultura local em que estão metidos e de onde não querem sair). É um tentar fazê-los entender de que o todo pode ser melhor do que as partes, e que temos o direito de, consciente e criticamente, recusar o todo que começa a parecer-se demasiado com as partes com que menos nos identificamos e que não temos de “engolir” a qualquer preço. Falo evidentemente de preço como valor, ou melhor, valores pelos quais aceitamos conviver, discutir, trabalhar e produzir numa determinada equipa para um objectivo que até podem dizer que é comum mas que, nos casos para que alerto, são só individuais, próprios e, até admitindo que qualquer um de nós deva retirar de situações em que nos empenhamos vantagem, nem que seja no gosto e prazer na actividade em si-mesma, normalmente gente como esta usa para disfarçar vantagem de sacrifício.

Ora a palavra “alternativa”, mesmo quando usada na anglo-saxónica expressão TINA – there is no alternative – vem do latim alternativus, e significa, etimologicamente, “escolha entre duas opções”. Se, por um lado, a análise da palavra mostra que nela já existe um radical (alter) que, em latim, significa “outro”, podemos considerar que a expressão “outra alternativa” é uma redundância ou um pleonasmo. Não podemos, no entanto, esquecer que, quando se fala em alternativa, não se tem necessariamente uma dualidade, e se pode abrir um leque para uma multiplicidade delas. Ou seja, quando se fala em alternativas, pode não se estar em face de apenas duas, mas até mesmo de várias para escolher. É até, em democracia, sinal de vitalidade dos cidadãos na vida das instituições.

Já na tauromaquia, a alternativa é a profissionalização do praticante desta arte, o que me leva a perceber que há quem tenha como única opção de vida tomar a alternativa e tornar-se na única opção de alternativas com quem nunca disputou o lugar. Obviamente, por falta de comparência de outros ou de capacidade de evitar previamente a ascensão ao lugar de quem nunca percebeu, nem quis perceber de forma escorreita, da arte que se propõe a exercer. Felizmente, lá para outubro, poderemos exercer em liberdade a democracia, o que significa que há sempre a tal outra alternativa. Até para a semana.

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