Aniversário

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 14 Março 2024
Aniversário
  • Nuno do Ó

Este ano fará 50 anos que aconteceu a revolução do 25 de abril, e com ela, todas as conquistas que hoje todos podem disfrutar, inclusivamente aquela que aqui me permite escrever, sem censura, a não ser aquela a que eu próprio me sujeito.
Por coincidência, no dia em que escrevo esta crónica, faz 49 anos que aconteceu a tentativa de contragolpe de estado de 11 de março, que tinha como protagonista a direita portuguesa, que procurava recuperar o poder perdido pelo 25 de abril e que assim planeou uma série de incidentes que levariam a uma operação militar que acabou por fracassar, e que, passo a citar, tinha como objetivo fundamental reconduzir o general Spínola à Presidência da República e remover o PCP e os seus aliados dos centros de decisão política, de forma a condicionar o processo de descolonização em África e as transformações em curso no território metropolitano1.
Em sequência e ainda nesse mesmo ano, no auge da reação à perda de poder e à hipótese de uma via do socialismo em curso em Portugal, as fações de direita e a Igreja Católica unidas, responderam à revolução dos cravos e às ocupações de terras promovidas pela Reforma Agrária no sul do país, perpetrando atos violentos, como o assalto a sedes de partidos de esquerda e atentados bombistas, sobretudo no Norte de Portugal, de que Rio Maior, palco de grandes distúrbios organizados pela Confederação dos Agricultores de Portugal, era a fronteira.
Esses acontecimentos, levaram Portugal à beira de uma guerra civil, decidida a 25 de novembro, com mais uma tentativa de golpe militar da direita portuguesa, quando o Major Melo Antunes, então Ministro dos Negócios Estrangeiros e membro do Conselho da Revolução, em entrevista sobre a situação político militar do país, fez a célebre declaração dizendo, simultaneamente, que a situação de Portugal não se poderia resolver por meios militares mas por meios políticos e que a participação do PCP na construção do socialismo seria indispensável, bem como a sua presença no sistema político português.
A importância desta afirmação era, em primeiro lugar, a de impedir o confronto entre as partes, designadamente as que queriam, mais uma vez, erradicar o PCP da vida política portuguesa, tal como o já tinham tentado antes, o fascismo e a PIDE ou o General Spínola, em pleno 25 de Abril e em segundo lugar, afirmar e assinalar o acordo feito entre os oponentes, que assim evitariam a guerra civil e que acabássemos todos a matar-nos uns aos outros. De um lado o PCP, Álvaro Cunhal e as forças de esquerda, que assim não saíram dos quartéis e a quem ficaremos para sempre a dever a inteligência de perceber que do outro lado, a apoiar as forças capitalistas de direita, estavam Mário Soares e os Estados Unidos da América, representados pelo seu embaixador Frank Carlucci, dirigente da CIA em Lisboa e por Henry Kissinger, o famoso secretário de estado norte-americano, dispostos a tudo que estavam para não deixarem alastrar qualquer forma de verdadeiro socialismo neste canto da Europa, objetivo a que não cederiam em qualquer caso, o que levou até a que, para que não restassem dúvidas da hipótese de uma intervenção militar norte-americana, o porta-aviões Saratoga fundeasse em pleno rio Tejo, como um sério aviso à navegação. Anos mais tarde, Mário Soares também garantiu, ao vivo e já a cores, se bem me lembro, que já tinha garantias do apoio britânico e as respetivas armas para o confronto que ameaçou desencadear.
Acontece que, por outra feliz coincidência, a que não me referi na altura por estarmos em campanha eleitoral, o Partido Comunista Português, fez no passado dia 6 de março, 103 anos de vida. Anos que passou a lutar contra o fascismo, por uma sociedade igual, livre de opressores e oprimidos, uma terra sem amos, sem escravos. Os episódios históricos que relatei anteriormente, servem apenas para lembrar e retratar o que tem sido a vida do PCP e dos que por ele e com ele, pelos seus ideais, deram o seu sangue e a sua vida, que nunca esqueceremos. Aqueles que nos deram a liberdade, sem nunca a ter chegado a ver.
Desde o dia do seu nascimento até aos dias de hoje, o partido comunista português nunca teve vida fácil, por não ser fácil estar sempre à frente do seu tempo. Não é fácil imaginar e propor uma vida em que todos sejam iguais entre si, camaradas.
No dia em que essa utopia for realizada, que será, ao olhar para trás, veremos quão idiota e primário foi não se ter percebido desde logo, que assim teria que ser, perante a simplicidade e brevidade da vida. Da mesma forma que no século XV discutíamos se os indígenas americanos seriam pessoas, da mesma forma que considerámos a escravatura normal, comprar e vender pessoas, da mesma forma que, ainda há pouco tempo atrás, não achávamos as mulheres capazes de tomar decisões e de votar. Tudo isto, à luz de hoje, é ridículo.
Estar à frente do seu tempo nunca foi nem será fácil. E nada mais à frente do nosso tempo, nada mais moderno, do que acreditar num mundo em que todos nos reconhecemos como iguais, perante um mundo, que ainda acredita em raças e purezas étnicas, que ainda não reconhece todos os seus semelhantes como iguais, mesmo aqueles com que não partilha língua ou cultura. Isto, sabendo que uma das principais singularidades que caracterizam a inteligência é o reconhecimento de si próprio e do outro, seu igual.
E é por isso que cá estaremos, como sempre estivemos.

Até para a semana!

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