Antas não são só pedras

Segunda-feira, 05 Outubro 2020
Antas não são só pedras

 

 

Por diversas vezes tenho falado aqui dos impactos das culturas intensivas e superintensivas de olival e amendoal no que toca à biodiversidade, ao consumo de água em tempo de alterações climáticas e de seca, à exaustão dos solos, ao uso de pesticidas e fitofármacos na qualidade de vida e saúde das populações.

Desta vez é um atentado ao nosso património colectivo que me leva a trazer de novo o tema. Bem podemos dizer que é o passado que alicerça o futuro. São palavras que passam ao lado de quem apenas pauta a sua actividade pelo lucro rápido, não cuidando do resultado das suas acções, que desta feita afectam o nosso concelho.

Isto dito a propósito da destruição de uma Anta no decurso dos trabalhos de instalação de mais um amendoal de regadio, exactamente na Herdade do Vale da Moura em Torre de Coelheiros.

Trata-se de uma Anta assinalada no PDM e, portanto, não podem os empresários do agronegócio vir alegar o desconhecimento nem, como tem vindo a acontecer noutros casos, que se tratava de vestígio não visível.

Mas infelizmente não é caso único. Nos últimos anos temos assistido à destruição sistemática do património arqueológico do Alentejo para a instalação de olivais e amendoais intensivos e superintensivos, fruto de actuações criminosas que têm ficado impunes.

No Baixo Alentejo são dezenas de sítios arqueológicos destruídos ou postos em perigo. Lembramos a destruição de 18 sítios arqueológicos na Ribeira do Álamo, incluindo os vestígios de uma ponte romana da Fonte dos Cântaros 3, de um aqueduto e de uma villa romana, os trabalhos na Villa romana de Pisões, a ponte romana que atravessa a ribeira de Odivelas em Vila Ruiva… e podíamos continuar.

Agora chegou ao concelho de Évora esta febre do amendoal de regadio e com ela a destruição destes sítios e monumentos, o que não pode ser tido por mera ignorância ou negligência. A instalação destas culturas superintensivas, o seu tratamento e a colheita são levados a cabo com recurso a maquinaria, muita de grande porte. A terra é limpa de pedras e a configuração do solo é muitas vezes alterada de molde a que nada impeça ou atrase a intervenção das máquinas nas sebes de oliveiras ou de amendoeiras.

Claro que uma anta impõe a interrupção da sebe de oliveiras ou amendoeiras e, portanto, é um empecilho para a operação da maquinaria.

No caso da Anta da Herdade do Vale da Moura, a Direcção Regional da Cultura já apresentou, e muito bem, queixa crime, mas a solução deste problema não pode ficar-se por aqui.

É necessário que quem destrói património arqueológico, a história de todos nós, não possa continuar a beneficiar de apoios financeiros atribuídos pelo Ministério da Agricultura. E não me refiro apenas às ajudas para a instalação destas culturas mas a todos os prémios que anualmente recebem.

Se monumentos e património não valem nada para os senhores do agronegócio, pode ser que os cortes na carteira lhes agucem o sentido de responsabilidade.

Mas é também preciso que o Ministério da Cultura dote os seus serviços regionais com os meios técnicos suficientes para que possam promover uma fiscalização efectiva e que os Municípios incluam nos seus Planos Directores Municipais normas disciplinadoras destas culturas e tenham também uma maior acção fiscalizadora do cumprimento dos seus PDM.

E porque hoje é 5 de Outubro, não posso terminar esta crónica sem assinalar os 110 anos de proclamação da República. Viva a República!

Até para a semana

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