Aos imperfeitos

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 05 Novembro 2020
Aos imperfeitos
  • Eduardo Luciano

 

 

Este é daqueles dias em que não existe esforço em descortinar um tema para a crónica semanal.

O Trump e o Biden nos Estado Unidos, o escancarar da porta à afirmação da extrema-direita, por parte do PSD, nos Açores, o possível estado de emergência light acertado entre Costa e Marcelo, a manipulação do sentimento de medo através de leituras enviesadas do número de infectados como se não bastasse a gravidade real da situação sanitária nalguns pontos do país, o Sporting ser líder do campeonato de futebol. Isto se não descer à realidade local, sempre uma fonte inesgotável de temas e subtemas decisivos para a vida da humanidade.

A questão é que o cronista não está para aí virado e esta será uma daquelas crónicas que de pouco mais servirá do que satisfazer quem a escreve.

Na passada semana Diego Armando Maradona comemorou seis décadas de vida e esse facto fez-me reflectir sobre a genialidade de um dos últimos artistas da bola, de um tempo em que um jogador poderia pintar uma tela, escrever um poema, compor uma sinfonia, mandando às malvas o rigor, a táctica, o gesto utilitário sujeito às ordens de um qualquer especialista da motricidade humana. Tudo isto com uma bola nos pés.

Indisciplinado, dependente de drogas e álcool, batoteiro se para tal fosse necessário para derrotar a Inglaterra.

Nunca foi visto nem vendido aos nossos olhos como um poço de virtudes, um modelo a seguir, ou alguém com quem casaríamos a nossa filha. Foi apreciado apenas pela sua obra, quando regressava à infância pobre e driblava metade da equipa adversária apenas pelo prazer de o fazer.

Todos os seres humanos são únicos e irrepetíveis, mas alguns estão tão distantes do comum, são tão inverosímeis que chegamos a duvidar que possam mesmo existir tal como os vemos.

Ah se o Maradona não consumisse a sua vida fora dos relvados em orgias de alienação, se fosse rigoroso a tratar da sua condição física, se seguisse com rigor as ordens dos treinadores, se tivesse um gestor de imagem e comunicação, onde não poderia ele ter chegado, dizem os que acham que a condição humana cabe num plano estratégico de vida com etapas e avaliações.

Na minha opinião não teria chegado a lado nenhum. Teria apenas vivido com mais saúde e ganho muito mais dinheiro e ficaria contido nos limites da formatação do profissional médio, mas com mais jeito, e hoje seria apenas mais um sexagenário que jogou à bola.

Não bateu recordes de número de golos ou campeonatos ganhos. Não o encontraremos em destaque nos livros de estatística mas ficará na nossa memória por aquele gesto único, por aquela finta que nunca vimos, pelo truque manhoso com que iludiu o árbitro.

Porque estou eu para aqui a dizer isto tudo se nem sequer sou um seguidor fervoroso do futebol. Deve ser porque gosto de heróis imperfeitos e improváveis. São esses que salpicam de cor as nossas vidas e como dizia o meu colega Luís Vaz “assim se vão da lei da morte libertando”.

Parabéns “El Pibe”

Até para a semana

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