Apoio ao Teatro: Os filhos e os enteados

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 21 Maio 2018
Apoio ao Teatro: Os filhos e os enteados
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Há dias foi conhecida a decisão da DGARTES sobre o Programa de Apoio Sustentado às Artes para os próximos 4 anos.

Uma decisão que, mais uma vez, me indignou, desta vez por ver que o projecto d’ a Bruxa Teatro não vai receber apoios.

Não por a sua candidatura não ser elegível mas porque no ano passado não beneficiou destes apoios. Se tivesse beneficiado, seria contemplada.

Assim, e como as verbas para a cultura são insuficientes, fica de fora.

Mas recapitulemos: Desde o anúncio dos resultados preliminares que este concurso gerou uma onda de contestação por parte dos agentes culturais, em especial do Teatro. O novo modelo de concurso e a exiguidade das verbas orçamentadas deixavam muitos artistas de fora, alguns com projectos bem firmados há anos.

Em Évora as duas companhias que apresentaram projectos – o CENDREV e a BRUXA Teatro -viram-se excluídas.

Também por cá a indignação foi geral e a Camara Municipal não hesitou – e bem! – e solidarizou-se com os agentes culturais pelo reforço de verbas e apoiou a participação na manifestação que teve lugar em Lisboa em 6 de Abril.

O Bloco de Esquerda e o PCP chamaram o Ministro ao Parlamento.

As intervenções políticas, os protestos de muitas centenas de artistas e estruturas, as manifestações por todo o país expuseram o falhanço e a desadequação do novo modelo de apoio às artes, mas também, para quem ainda tinha dúvidas, a inexistência de um verdadeiro ministro da Cultura e obrigaram António Costa a reunir com a Comissão Informal de Artistas e a reforçar as verbas do Programa.

Ora, o resultado final do concurso para o Teatro mostra-nos que das 90 candidaturas, 71 foram consideradas elegíveis e destas 68 têm apoio.

O Cendrev, que tinha sido beneficiário de apoios no quadro passado, viu felizmente o seu projecto contemplado.

Ficaram agora apenas 3 projectos fora desses apoios. Um é, portanto, a Bruxa Teatro.

Apesar de os apoios à Cultura serem escandalosamente exíguos – diga-se que este ano os 19, 2 milhões de euros a que chamam “apoios sustentados“ representam apenas 0, 01 % (zero virgula zero um) do orçamento de Estado – são, ainda assim, determinantes para a sobrevivência das companhias e dos artistas.

A Bruxa, como outras companhias, vive há anos no fio da navalha. E a questão que se põe é se poderá continuar a sobreviver quando está excluída dos apoios sustentados da DGARTES para os próximos 4 anos?

Neste caso a falta deste financiamento pode significar perder mais um agente cultural, o que é mais grave quando se tem na cultura um dos pilares estruturantes do desenvolvimento e Évora se perfila como candidata a Capital Europeia da Cultura. Poderemos acomodar-nos quando um dos nossos agentes culturais é posto em risco?

Do meu ponto de vista não. O Bloco de Esquerda irá questionar o Governo relativamente a estes casos de não apoio, porque para além do mais é inadmissível a alteração de regras a meio do programa, como aconteceu com o apoio sustentado ao Teatro.

E por isso lanço daqui o desafio para que a Camara Municipal de Évora, para além do apoio concreto que seguramente não deixará de prestar, actue junto do Governo. Que persista na indignação e continue a exigir o necessário reforço de verbas para o Programa de Apoio Sustentado 2018-2021, para que não apenas um mas ambos os projectos elegíveis de companhias de Évora sejam apoiados.

Porque como disse o actor Nuno Lopes “um país sem Cultura não é um país, é uma área mal ocupada”

Até para a semana

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