Aquele dia inicial, inteiro e limpo!

Segunda-feira, 25 Abril 2022
Aquele dia inicial, inteiro e limpo!

 

 

Celebramos hoje aquela madrugada porque tantos esperávamos e que chegou, por fim, ao som dos passos ritmados e das palavras com que Zeca Afonso nos cantava a liberdade e o poder do povo na Grândola da fraternidade.

Chegou-nos pela mão dos jovens militares a quem “o regime” tirava o acesso à modernidade que se vivia por toda a Europa e a quem a guerra colonial tirava a perspectiva de futuro e tantas vezes a vida.

Naquele “dia inicial, inteiro e limpo”*chegou-nos a esperança da liberdade e do progresso, a nós que vivíamos aperreados num canto da Europa, isolados no “orgulhosamente sós” de Salazar e Marcelo Caetano, submetidos a um regime ditatorial, assente na ignorância e no medo, na prisão e na tortura, pobres e privados de direitos civis, rejeitados pela comunidade internacional.

Sim, os nossos livros de história falam pouco disto e para os nossos jovens é quase inimaginável, mas durante 10 anos Portugal viu vetada a sua adesão à ONU e a partir dos anos 60 as Nações Unidas condenavam sistematicamente Portugal e apelavam à autodeterminação das colónias africanas.

Passaram quase 50 anos sobre aquele 25 de Abril, uma migalha de tempo na nossa história colectiva mas tanto tempo na memória de cada um e cada uma de nós!

Talvez porque isso, porque não cuidámos da memória, hoje há por aí quem queira fazer crer que dantes é que era bom. Saudosistas de um passado de privilégios para poucos e miséria para muitos que vão manipulando com os seus discursos de ódio à Democracia e ao 25 de Abril os menos informados e os que não vêm grandes melhorias nas suas vidas.

Outros vendem por aí, travestido de modernidade, um liberalismo serôdio que também ele mais não é que um remake do ditado alentejano “meio-dia para todos, almoço para alguns”.

Por isso é preciso hoje estar aqui a lembrar que foi o 25 de Abril que nos trouxe não apenas os direitos políticos e cívicos, mas também os direitos sociais.

Com o 25 de Abril chegou a Escola Pública e em vez do país onde quase um em cada três não sabia ler nem escrever e só os privilegiados chegavam à Universidade e ainda assim poucas eram as raparigas que o frequentavam, hoje o 12º ano é obrigatório, temos mais de 400.000 alunos no ensino superior e que mais de metade são mulheres.

Com o 25 de Abril chegou a enorme conquista que é o Serviço Nacional de Saúde universal, público e tendencialmente gratuito a que devemos ter hoje das menores taxas de mortalidade infantil ao nível mundial, quando em 1970 morriam 68 bébés por cada mil nascimentos, que conseguiu erradicar muitas doenças graças aos planos públicos de vacinação. Foi o Serviço Nacional de Saúde público que nos respondeu agora na pandemia de Covid e ficou mais uma vez demonstrada a importância de o dotar dos meios humanos e materiais adequados.

Mesmo quando avaliamos a pouca habitação pública que existe e o muito que há aqui a fazer é preciso lembrar aquele país do “pé descalço” e da fome que eramos, onde os trabalhadores das cinturas industriais viviam em grandes bairros de barracas e “ilhas” e água canalizada e esgotos eram luxos das cidades e só nas zonas centrais.

E podíamos continuar a falar de Estado Social porque com o 25 de Abril nasceu a Segurança Social e com ela universalidade dos regimes de protecção social: o regime geral de pensões e prestações sociais para eventualidades como a doença, o nascimento e a morte, as pensões sociais e o rendimento mínimo hoje RSI.

Com o 25 de Abril mudou a perspectiva com que olhamos o país e as pessoas: Solidariedade em vez de assistencialismo, conhecimento em vez de obscurantismo, comunidade e compromisso inter-geracional em vez de individualismo.

Está tudo bem? Nem de perto nem de longe. Mas a construção da Democracia é um processo contínuo e está nas nossas mãos continuar o que se iniciou no 25 de Abril.

Até para a semana!

*Sophia de Mello Breyner Andreson

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