Aquilo que é impactante é aquilo que é o top

Crónica de Opinião
Terça-feira, 14 Janeiro 2020
Aquilo que é impactante é aquilo que é o top
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Ora bem: esta é a expressão que parece vir a substituir o pobre autoritário, e por isso ridículo em tantas ocasiões, “É assim” na expressão de argumentos em conversas mais ou menos formais. Começar a crónica que intitulo “Aquilo que é impactante é aquilo que é o top” pode parecer que quero fugir ao tema político do orçamento, ao cíclico terror sempre anunciado de um dos sempiternos geo-conflitos mundiais, ao horror dos incêndios na Austrália sem SIRESP para culpar mas com alterações climáticas a que se continuam a fazer orelhas moucas nos lugares cimeiros dos destinos políticos do Planeta. Pode parecer que quero fugir a isto tudo e mais algumas coisas, mas não. É apenas pegar nestes e noutros assuntos por um outro lado. E é voltar aos media como instrumento, instituição e fim em si mesmos na sociedade contemporânea.

Oiço muito a Comunicação Social para me manter a par das notícias e conhecer opiniões e contraditório sobre as mesmas, optando por ignorar a maioria das vezes as imagens. Percebo que os meios audiovisuais sofram muito mais agora com a necessidade de usar o que se chama no jargão “encher chouriços”. O truque de manter o microfone com som quando a imagem não mexe para evitar que o público “saia da sala” leva a conversas pouco interessantes, por vezes a roçar o “lá-lá-lá” das cantigas com falta letra e sem que esse refrão reduzido seja portador de sentido e, como tal, não redundante.

Verifico é que a redundante e irritante expressão “aquilo que é”, nas suas variações de pessoa, género e número, tomou de assalto o discurso captado pelos microfones. E proferido por gente com níveis de habilitações e, alguns com posições relevantes, que me levam a pensar que quem a usa julga tratar-se de um factor distintivo no requinte do uso da língua. Não é. Pode não significar ignorância ou pobreza de vocabulário, claro, como o repetir de certos adjetivos, mas sim um tique de pouco à-vontade ou nervosismo, o que para alguns pode ser compreensível e será para muitos, corrigível. Já o que tem correcção mais difícil é quem pense que é mais do que os outros por enrolar com as palavras quem quer ouvi-lo ou ouvi-la. Isso acontece também com o uso para tudo e mais alguma coisa dos tais adjectivos, normalmente na moda e a parecer modernos ou eruditos como, respectivamente, “top” e “impactante”.

O que é que isto tem a ver com o OE2020, o conflito no Irão ou as alterações climáticas? Alguma coisa tem, certamente. O facto, pelo menos, de ser através dos mass media e da Comunicação Social que tomamos conhecimento e formamos opinião sobre o que vai pelo Mundo. E que se não usarmos algum tempo a pensar até sobre a forma como isso que vai pelo Mundo chega até nós, exercitando o nosso espírito crítico, talvez acabemos a usar sem nos darmos conta a opinião de outros que acham que têm mais jeito para a dar. Acham e parece que têm, quando ouvimos estas virais formas de expressão na boca de toda a gente, desculpem-me a generalização provavelmente injusta. Às vezes, os sintomas de casos graves chegam com estranhos e aparentemente insignificantes sinais.

Até para a semana.