Arrogância?

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 03 Dezembro 2020
Arrogância?
  • Eduardo Luciano

 

 

O Congresso do PCP terminou no domingo e esta poderia ser uma crónica sobre as decisões tomadas ou a forma exemplar como decorreu, com tal respeito pelas regras sanitárias que duvido que tivesse existido naqueles três dias, lugar mais seguro no mundo do que o Pavilhão Paz e Amizade.

Poderia ser uma crónica sobre a impossibilidade legal de suspender a actividade política através do decreto que enquadra o actual estado de emergência e de como ao realizar o seu Congresso o PCP demonstrou que, apesar da gravidade da situação sanitária, é possível e desejável continuar a viver.

Durante o cerrado ataque aos comunistas nas últimas semanas valeu tudo. Desde a deturpação de declarações ao recurso a imagens descontextualizadas, desde a suposta análise política enviesada até à mentira mais descarada e uma crónica sobre tudo isso poderia demorar horas a ser lida.

No meio das diversas diatribes, uma palavra dita por um deputado do PSD e repetida pelo presidente da mesma agremiação ficou-me na memória. A palavra arrogância. A arrogância do PCP em realizar o seu Congresso.

Olhei para os 100 anos de história do Partido e não consigo deixar de entender o que aquelas duas almas quiseram dizer.

De facto, durante os 48 anos de ditadura, enquanto os Rios deste mundo apregoavam o lema “a minha política é o trabalho” e não se metiam em nada que os pudessem comprometer, os comunistas com a sua arrogância lutavam pela liberdade arriscando a própria vida.

Quando em plena ditadura alguns dos futuros fundadores do PPD se sentavam nas cadeiras da então Assembleia Nacional representando uma autodenominada ala liberal do partido único, havia comunistas que no cúmulo da arrogância viviam clandestinamente, outros presos ou exilados para que a democracia que vivemos após Abril de 74 fosse possível.

Quando nos últimos anos da ditadura foi permitido ao futuro militante número um do PPD fundar um jornal e fazê-lo publicar semanalmente, os militantes comunistas, com uma arrogância sem paralelo, continuavam a fazer o seu jornal proibido e a distribui-lo de mão em mão sabendo os riscos que corriam se fossem apanhados a fazê-lo.

Já percebemos que esta coisa da arrogância está-lhes na massa do sangue, porque mesmo perseguidos nunca deixaram de fazer o que era preciso para conquistar a liberdade que permite que hoje eu não possa abdicar de escrever esta crónica.

É uma história de arrogância, a do PCP. Quando no Verão de 1975 os saudosistas do fascismo e os seus aliados de ocasião puseram o país a ferro e fogo incendiando Centros de Trabalho, executando atentados bombistas e preparando o caminho para a contra revolução, os comunistas voltaram a mostrar a sua proverbial arrogância e voltaram a abrir novos Centros de Trabalho e não abdicaram da sua actividade política.

Quando por essa europa fora outros partidos congéneres abdicaram de ideais e se condenaram à extinção, os arrogantes comunistas portugueses fizeram o que era preciso para, sem vender a alma ao diabo, garantirem a continuidade da sua luta.

Têm razão os Rios desta vida. Como poderia um Partido com tal história desistir humildemente de realizar o seu Congresso apenas porque os saudosistas do outro tempo assim o desejavam?

Bem sabemos que é este arrojo que, talvez por um problema de iliteracia, confundem com arrogância que lhes é imperdoável.

É esta independência que lhes é intolerável. Sempre foi, nos últimos 100 anos.

Até para a semana

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