As duas faces da Igreja

Crónica de Opinião
Quarta-feira, 15 Março 2023
As duas faces da Igreja
  • Maria Paula Pita

 

 

Todos procuramos um sentido para a vida terrena. A maior parte não concebe a finitude da vida e almeja o infinito. A descoberta de um sentido de vida permite deixar para trás o vazio existencial e ajuda a suportar a dor e o sofrimento. Para muitos, a religião, enquanto sistema de crenças, valores e rituais, é a resposta.

A Igreja Cristã teve, desde os seus primórdios, duas faces. Responsável pela sobrevivência da cultura clássica, de proteção aos mais frágeis, da assistência aos doentes e aos pobres, foi, também, autora das maiores atrocidades cometidas em nome da Fé e de Deus: a tortura, os autos de fé, as perseguições à ciência, aos judeus e a todos os considerados hereges. A Igreja, como qualquer instituição, é formada por homens que erram e capazes da maior maldade.

“Deixai vir a mim as criancinhas porque delas será o reino dos Céus”. Esta frase ao longo dos tempos tem sido “interpretada” por alguns membros da Igreja de uma forma distorcida. A questão dos maus tratos e de abusos sexuais a crianças e jovens percorrem a história da Igreja, mas só começou a ser denunciada após os escândalos que afetaram a Igreja Norte Americana, embora os Papas João Paulo II e Bento XVI a tenham tentado encobrir. Deve-se ao Papa Francisco, a assunção que há gente na Igreja que se aproveita da sua condição, de ser intermediário de Deus, para violentar crianças e jovens. Não haverá maior pecado do que este. Violentar crianças que confiam em Deus e em Seu nome destruírem vidas que estão no começo, fazendo-as sentirem-se culpadas, humilhadas, num sofrimento que se revela atroz.

E o que fazem os mais altos dignitários da Igreja? Em quantos pecados capitais incorreu D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa, ao não mostrar compaixão pelas vítimas, ao referir que eram apenas nomes, que sem contraditório não poderia suspender os alegados abusadores, ao solicitar mais dados à Comissão Independente que “permitam fundamentar a proibição do exercício público do ministério”, ao recusar indemnizações a quem tanto sofreu/sofre nas mãos da Igreja

Que dizer das afirmações do Bispo de Beja, do Porto ou Santarém? Ou sobre quem justifica este horror por sofrer de depressão? Não é depressão! É parafilia! São comportamentos sexuais desviantes e perversos abafados ao longo dos séculos.

Felizmente, para a Igreja e para as vítimas, existe quem pense diferente. D. Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora, não teve dúvidas em proceder ao afastamento cautelar de um padre que se encontra em funções, em abrir uma investigação devido a uma denúncia de alegados abusos de menores, na década de 80, no Seminário Menor de S. José, em Vila Viçosa e em assumir que é função da Igreja acompanhar quem sofre, concedendo indemnizações às vítimas.

Nas suas palavras: “A questão moral não prescreve”.

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