As famílias são perigosas?

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 14 Maio 2020
As famílias são perigosas?
  • Alberto Magalhães

 

 

Na edição online, de 11 de Maio, do jornal Público, um artigo da psicóloga Rute Agulhas, acerca do assassinato da pequena Valentina, ou melhor, sobre a tendência para, quando surgem casos destes, se procurarem bodes expiatórios no sistema de protecção de crianças, merece a minha concordância em termos gerais, mas faz uma afirmação que, levada à letra, é falsa e profundamente injusta. Diz a autora que “o país está mergulhado em choque e indignação” porque (e vou citar) “teimamos ainda em acreditar que a família é o lugar mais seguro para uma criança. Não é, nunca foi, e duvido que alguma vez venha ser. Na esmagadora maioria das situações, é na família que ocorrem os maus tratos, a negligência e o abuso sexual de crianças e jovens” (fim de citação).

Esta visão, pessimista, da família, é muito comum entre os técnicos do sistema de proteção. É uma percepção enviesada do problema, fruto da realidade com que têm de lidar. É verdade que, como diz Rute Agulhas, “O indivíduo estranho, feio, porco e mau, que aparece do nada, rapta, maltrata e viola as crianças, é mais um mito do que uma realidade”.

De facto, a esmagadora maioria das maldades sofridas por crianças têm origem nos seus familiares. Mas, esses casos não dizem respeito senão a uma, relativamente pequena, percentagem de famílias, que preenchem a atenção e os esforços das CPCJ, ou passam despercebidas até ser tarde demais, como foi o caso da Valentina.

Porém, a esmagadora maioria das famílias são, de facto, o lugar mais seguro para as crianças, sobretudo nas sociedades desenvolvidas, em que os filhos já não precisam de ser feitos em série, antes são fruto de planeamento familiar. Curiosamente, a minha percepção (quiçá também enviesada) é de que na maioria das famílias actuais, as crianças são protegidas demais.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com