As Farpas de Ramalho Ortigão

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 25 Fevereiro 2019
As Farpas de Ramalho Ortigão
  • Alberto Magalhães

 

 

Neste fim-de-semana, dei em reler o VIII volume das Farpas de Ramalho Ortigão. Na parte que trata dos compêndios adoptados para a instrução primária, em crónicas de 1871, o companheiro de Eça de Queiroz mostra o seu humor corrosivo, que bem falta faz hoje em dia apesar de, desde então, alguma coisa ter melhorado na instrução da criançada.

Veja-se, por exemplo, a Tabuada metódica dos rudimentos de aritmética, nesta pedagogia da pergunta e da resposta:

“P – O menino está aí? R – estou, sim, senhor. P – O menino só o que é? R – Sou um menino.

…….

P – O que é um? R – É um.

P. Havendo dez meninos, como se chama o menino que estiver “antes” de todos?

R – É o primeiro menino.”

Repare-se agora como eram bem explicadas as Ciências da Natureza:

“Os animais muito pequeninos chamam-se bichos”.

“Os bichinhos que têm riscas no corpo que parecem anéis chamam-se insectos”.

“Ave é qualquer animalzinho que voa…Animal é qualquer objecto que se pode mover por si mesmo, e ir de um sítio para o outro, sem que ninguém o leve nem coisa alguma… Os peixes que nascem dentro de conchinhas chamam-se mariscos…”.

Diz Ramalho, entre outras meditações pedagógicas: “Temos repentinamente de principiar a considerar ave um animalzinho que voa chamado mosquito; temos por outro lado de fazer entrar imediatamente na classe dos vegetais os animais que pela velhice, pelo cansaço ou pela doença, se não possam mexer nem ir de um sítio para o outro sem que os levem”.

Vale a pena reler as Farpas do Ramalho… e as do Eça também.

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