As matanças não são solução

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 01 Junho 2023
As matanças não são solução
  • Alexandra Moreira

 

Esta terça-feira teve lugar, em Évora, a apresentação do Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal.
Tratou-se de um evento organizado pelo Ministério do Ambiente e pelo ICNF, destinado a divulgar as conclusões de um estudo financiado com dinheiros públicos (mais de 323 mil euros), no qual participou o investigador Carlos Fonseca.
De acordo com Carlos Fonseca, é preciso (passo a citar) “aumentar a capacidade de extração [leia-se abate]” de javalis, dos 20 mil animais por ano atuais, para cerca de 26 mil por ano, nos próximos dez anos; sugere até, imagine-se, a “profissionalização” de caçadores.
Enfim, percebe-se que Carlos Fonseca seja muito apreciado e premiado pela Federação Portuguesa de Caça.
Ainda assim, confesso a minha perplexidade quando me deparo com um biólogo que defende o incremento das matanças como remédio para os alegados desequilíbrios de populações silvestres…
O Secretário de Estado da Conservação da Natureza, João Paulo Catarino, o mesmo que tem declarado que “o ICNF é o instituto dos caçadores”, logo anunciou a intenção de alargar os períodos de caça ao javali.
E o ICNF, por sua vez, nem descartou a hipótese da tal “profissionalização” de caçadores.
Quem ali entrasse ao engano, sem conhecer os protagonistas, até podia pensar que estava num qualquer evento patrocinado pela Federação da Caça. Certamente que o que nunca pensaria era que aqueles eram representantes nacionais do setor da Conservação da Natureza e do Ambiente…
Isto, num país onde não existem Vigilantes da Natureza e se descuram Áreas Naturais a proteger, ao mesmo tempo que se desbaratam milhões no setor da caça e se permitem matanças com recurso a meios medievais.
Ao invés de se atuar a partir das causas dos alegados desequilíbrios, promovem-se montarias bárbaras sob a designação pomposa “correção de densidades”.
Para além de se incentivarem práticas cruentas e de se perturbar o meio natural pela invasão de caçadores, essa é uma abordagem totalmente ineficaz. Se as causas estruturais se mantêm, os animais continuarão a reproduzir-se.
E as causas do aumento da população de javalis são bem conhecidas: a desflorestação, as extensas áreas de monocultura, a fragmentação dos habitats naturais desses animais, o extermínio dos predadores naturais, tais como o lobo e o lince, a acumulação de resíduos orgânicos, e também a criação de javalis em cativeiro para fins cinegéticos.
Mitigar esses problemas, a par do aumento da área de proteção das reservas e parques naturais, seria apostar numa solução ética de resultados duradouros e consistentes.
É igualmente importante o recurso a métodos de controlo de natalidade desses animais, nomeadamente por implante cutâneo, à semelhança do que tem vindo a ser implementado noutros países.
Por outro lado, é essencial criar mecanismos de compensação dos prejuízos causados pelos animais, quer em acidentes, quer na agricultura. O Estado deve assumir a responsabilidade pela incompetência estrutural com que tem lidado com o assunto, que tem deixado nas mãos dos caçadores.
O PAN tem vindo a apresentar diversas iniciativas legislativas acolhendo as referidas propostas, designadamente, em dezembro de 2022, através de um projeto de resolução chumbado pelo PS, PSD, CH e PCP, com abstenção da IL e do BE.
O lobby da caça está bem instalado quer no Governo, quer no Parlamento.

Até para a semana.

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