As memórias de um homem demasiado comum

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 25 Outubro 2018
As memórias de um homem demasiado comum
  • Eduardo Luciano

 

 

Cavaco deu à luz uma espécie acerto de contas com todos os que consigo se cruzaram no exercício das suas funções.

Pensávamos que após o primeiro volume daquele exercício de mesquinhez e ausência de saber estar, não seria possível ir mais além. Cavaco, do alto sua aura de imprevisível, conseguiu surpreender ao descer no uso depreciativo da palavra em relação a pessoas que, por obrigação, com ele privaram em reuniões de trabalho.

Não está em causa o direito de escrever memórias ou de contar histórias que possam ter como efeito demonstrações da existência de vida para além do pensamento monocórdico ou da estrutura mental de quem nunca arriscará escrever sem ser em papel pautado ou quadriculado, mas podemos reflectir como foi possível os portugueses elegeram tal figura para presidente da república e ter exercido, por via de maiorias parlamentares conseguidas em eleições legislativas, o cargo de primeiro-ministro durante dez anos.

Claro que há pouco para reflectir. Olhando para o que é bolsado nas redes sociais assente em palavras-chave como “vergonha” ou “indignação”, para forma como se faz política atacando as pessoas em detrimento de opções políticas, usando a insinuação como arma e a substituição de factos por convicções, como munição para atingir o bom nome, a dignidade e o direito à imagem de adversários e, por vezes, até de correligionários, conseguimos perceber como pode um homem que escreve o que Cavaco escreveu, ter exercido o poder durante 20 anos.

Cavaco representa o lugar-comum, o falso rigor da normalidade securitária, o moralismo transversal a todos os sectores da sociedade, a inveja, o complexo de inferioridade escondido debaixo da capa da arrogância. É o retrato vivo da descrição que José Gil faz na sua obra “Portugal, Hoje, O medo de existir”.

Tantas vezes tratado como uma anedota, o ex-presidente da República deveria ser utilizado como base de estudo para nos percebermos melhor, para entendermos melhor porque é que o nosso “homem comum” se vê representado naquela figura.

Quarenta e oito anos de ditadura deixam um rasto no comportamento social que não é possível apagar com quarenta e quatro de liberdade e não nos podemos esquecer que desses 44, vinte foram com Cavaco Silva no exercício do poder.

Se o livrinho que agora viu a luz tem algum mérito é de nos por a pensar em queixumes, ressentimento e invejas, tal como o capítulo do livro que atrás citei e que tem exactamente estas mesmas palavras.

Até para a semana