As tramóias de Erdogan

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 11 Março 2020
As tramóias de Erdogan
  • Alberto Magalhães

 

 

Já aqui tenho referido o fado europeu de sermos auto-designados, mas também externamente apontados, bodes expiatórios para todos os males que afligem quem vive para lá das nossas fronteiras. Os nossos vizinhos, pelo contrário, mesmo quando despudoradamente facínoras, têm sempre uma justificação, que atenua a sua pulhice.

Veja-se o caso da Turquia. Atacou os curdos, abandonados por Trump à sua sorte, depois de ajudarem a dar cabo do Daesh. Invadiu a Síria, depois de comprar material militar à Rússia. Agora, vendo-se em apuros, tenta chantagear a União Europeia, empurrando os refugiados e migrantes para a fronteira grega, porque não recebeu o apoio militar e diplomático que exigia, para evitar uma derrota sem honra, face ao governo sírio ajudado pelos russos.

Face à situação desesperada de milhares de pessoas que tentam entrar na Europa, ouço vários jornalistas e comentadores, diariamente, acusarem a União Europeia de falta de humanidade, pois recusa abrigo a quem tem o direito de o obter; de falta de visão, pois precisa de migrantes e refugiados que combatam o envelhecimento demográfico;… e por aí adiante.

Desculpem! A Turquia não tem obrigação de acolher os refugiados, de acordo com as mesmas convenções internacionais que obrigam os países europeus? Alguma lei dá, aos refugiados, o direito a escolher o país onde se querem instalar? A Turquia não recebeu 6 mil milhões de euros para a ajudar a suportar o peso da situação?

A Europa é culpada da sua fraqueza e falta de coesão. De não ter uma coerente política externa e para os refugiados, para a imigração ilegal e para a imigração legal. É tempo de atribuir as responsabilidades devidas aos governos de onde vêm os refugiados e os migrantes, em vez de nos fustigarmos e abrirmos as fronteiras de par em par, para mitigar sentimentos de culpa. Antes que seja tarde.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com