Assumo a responsabilidade e então?

Nota à la Minuta
Terça-feira, 02 Março 2021
Assumo a responsabilidade e então?
  • Alberto Magalhães

 

 

Depois de amanhã, passarão vinte anos sobre a tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Jorge Coelho, o poderoso ministro do Equipamento Social do Governo Guterres, demitiu-se, depois de declarar que a culpa não podia morrer solteira. Em 2017, António Costa, pelo contrário, aquando dos incêndios de Pedrogão, apelidou de “infantilidade” o apelo à demissão da ministra Constança Urbano de Sousa que, por sua vez, achou que demitir-se seria o “mais fácil” e recusou fazê-lo, obrigando o Presidente Marcelo a empurrá-la para férias.

Bem ou mal, foi Jorge Coelho que ficou bem na fotografia, ao assumir, da queda da ponte, a responsabilidade política, mesmo sem se lhe poder assacar culpa alguma pelo sucedido.

Certo é que, depois de anos em que os políticos se recusaram a seguir o exemplo de Coelho – veja-se o caso recente do lamentável ministro Eduardo Cabrita – parece que, finalmente, ganhou discípulos, embora tenham aprendido a lição de forma enviesada.

“Só pode haver um responsável, que sou eu” – disse anteontem Luís Filipe Vieira. Acrescentando, porém, sem achar contradição, “contestar-me, não faz sentido nenhum”.

Ontem, Marta Temido, a inefável ministra da Saúde, declarou-se responsável pelas imprevidências e más decisões, mas logo acrescentou que o problema do Natal ainda tem de ser bem estudado: terá sido a variante britânica, a vontade de celebrar o nascimento do menino Jesus, ou o frio do Inverno?

Já antes, sobre o Natal, o primeiro-ministro dera o exemplo, de forma melíflua: “dizer-me que a culpa foi minha da forma como as famílias celebraram o Natal…Senhor deputado, ofereço-me desde já a esse sacrifício”. Mais impenitente, só o ministro Cabrita que, numa fase inicial do confinamento de Janeiro constatou que “a população em geral não interiorizou a gravidade da situação vivida”, recusando o ministro ilibar o povo de responsabilidades.

A moda está tão forte que até o Presidente da República, sem ter poder executivo, se declarou o responsável máximo pelo que tem corrido mal. E, como penitência de ter pensado em partilhar as refeições do Natal com mais 20 pessoas, quer-nos fechados durante a Quaresma.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com