Balanço para o regresso

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 20 Setembro 2018
Balanço para o regresso
  • Eduardo Luciano

 

 

Regressamos e como diz o escritor nunca regressamos ao mesmo sítio. Ainda que pareça que nada mudou nas semanas em que estivemos longe deste espaço de comunicação. Houve de tudo um pouco, desde virgens ofendidas com este ou aquele suposto drama supostamente político à muito recente indignação com os jeans que um governante envergava numa visita de estado a um país africano.

Tivemos a omnipresença de um presidente em calções a distribuir afectos como se fossem doses de protector solar, um incêndio tenebroso numa serra algarvia com todos os aproveitamentos possíveis e imaginários dos dramas das pessoas que foram atingidas como se cada fogo fosse uma oportunidade de queimar em lume brando o adversário, ou melhor, o cúmplice, pela situação criada.

Foram apenas algumas semanas e temos a sensação que o regresso encontra uma realidade mais hostil e menos saudável como se tivéssemos dado mais uma voltinha numa espiral que nos leva até um inferno conhecido.

Por esse mundo fora começam a surgir episódios que seriam impensáveis há algum tempo e avanços de forças que uns trataram com bonomia porque entendiam inofensivas e outros alimentaram como instrumentos de combate para garantir a sobrevivência do sistema.

Estes últimos, de forma hipócrita, tecem agora loas preocupadas contra o que chamam de “populismo” ameaçador da sua forma de vida, quando antes apoiaram e financiaram o surgimento de movimentos que lhes foram de uma enorme utilidade para garantia de privilégios perante a luta de explorados e espoliados dos quatro cantos desta terra quase redonda.

Entre nós vamo-nos convencendo que somos excepção, que não existe risco de deriva fascista mascarada de justicialismo e que a nossa extrema-direita se fica pelo “bem educadinho” CDS.

Basta ouvir comentadores nos canais televisivos, ler comentários nas redes sociais, ouvir as queixas indignadas contra o vizinho do lado que de boa vontade exterminariam, para perceber que existe uma imensa massa de gente a ser empurrada para a desesperança e que apenas espera por um qualquer homem ou mulher providencial “que venha por isto na ordem” para se voltarem a imolar no mesmo fogo que nos consumiu durante metade do século passado.

O mundo unipolar do capitalismo parece caminhar para o regresso à barbárie num tempo em que o desenvolvimento tecnológico, se usado em prol da humanidade, prometia mais liberdade e uma distribuição mais justa do rendimento.

Como em tudo na vida existe um outro lado. O lado dos que resistem, dos que não navegam em ondas de visibilidade, não se vendem pela possibilidade de uma boa imprensa ou se recusam a usar o léxico da moda para parecerem obedientes ao pastor de serviço.

Haja esperança e valorizemos os avanços conseguidos lutando para os reforçar e conquistar novos territórios de progresso.

Nada de desânimos só porque o Bolsonaro sobe nas intenções de voto no Brasil ou os neo nazis suecos obtiveram um resultado eleitoral significativo.

Se até o Tom Waits interpreta, no disco do guitarrista Marc Ribot, a velha canção de resistência antifascista Bella Ciao, é porque há cada mais vez mais gente disponível para estar do lado certo da vida.

Até para a semana