Beatas e beatos pós-modernos

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 26 Fevereiro 2020
Beatas e beatos pós-modernos
  • Alberto Magalhães

 

 

Eça de Queiroz, em A Relíquia, retrata magistralmente a beata amarga e dura, incapaz de compaixão para com o semelhante e, muito menos, de oferecer a outra face ou de perdoar quem a ofendesse. Assim era a puritana Titi do Raposão que, ao menor atraso do sobrinho, explodia: “relaxações em minha casa não admito!… Lá deboches e porcarias, não, enquanto eu for viva”. Raposão, que sonhava vir a herdar a fortuna da tia, mostrava em casa, hipocritamente, a mais beata das máscaras, enquanto frequentava secretamente a Adélia, menina de pouca virtude.

Para mim, quando adolescente dei em ler A Relíquia, a Titi personificava muitas beatas que eu conhecia e que ‘papavam missinhas’ com a mesma sofreguidão com que condenavam ‘mulheres da vida’, ‘divorciadas’, e outras ‘galdérias’. Foram, ao longo da minha vida, rareando, embora ainda se encontrem, aqui e ali, alguns exemplares.

Porém, de há uns anos para cá, a par de uma vulgarização do sexo casual, quase desportivo, tem crescido um certo puritanismo feminista, que se manifesta, entre outras coisas, numa autêntica cruzada para salvar todas as prostitutas, mesmo as que declaram não quererem, nem precisarem, de ser salvas. Ainda não percebi se também querem salvar os prostitutos mas, uma coisa é certa, não se limitam a lutar contra o tráfico de mulheres e a sua exploração opressiva e violenta.

São uma espécie de beatas e beatos pós-modernos, que são capazes de aprovar a eutanásia em nome da autonomia e da dignidade humana, mas que consideram indigna a actividade sexual profissional, sem respeitarem a dignidade e a vontade de quem a pratica.

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