Bem-vindos à Liberdade

Crónica de Opinião
Terça-feira, 25 Abril 2017
Bem-vindos à Liberdade
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

De forma particular este ano, fico satisfeita pelo facto de a minha crónica ir para o ar num dia 25 de Abril, quando termino um ciclo e recomeço outro, que a vida não pára e anda depressa. Foram oito anos em que estive directamente ligada a funções políticas públicas neste Portugal democrático, neste Alentejo do interior do rectângulo mais ocidental da Europa, nesta Cidade – ela também maravilhosa como a outra lusófona – que transpira a grande História e resiste pequenina, persistentemente, à mudança de ciclos, para o bem e para o mal. Mas deixemos as questões individuais. Não que elas não sejam importantes para falar da Liberdade, já que não podemos falar dela sem falar de Cidadania, ou Política como queiram. E esta é feita de e para indivíduos, nos seus modos diferentes de só a apregoar ou de, efectivamente, nela actuar.

Aos 43 anos de Liberdade instituída, Portugal, o Alentejo e Évora têm cada vez mais Cidadãos que se assemelham aos do resto do Mundo. Quer queiramos ou não, crenças e fés à parte, todos devemos tudo ao Sul, à África, a esse pedaço de terra que transpira em tradições perpetuadas, outra vez para o bem e para o mal, e onde, ou para onde, parece que teremos sempre de voltar para medir o nosso progresso enquanto Humanidade e percebermos o tanto que há ainda por fazer. Mas mesmo nessas diferenças, também intercontinentais, somos todos espécimes de uma imensa espécie, a humana.

Com a Liberdade instituída passámos, naturalmente, às instituições as responsabilidades. Mas cada vez mais nos “encostámos” a elas, esquecendo que também elas são feitas da mesma matéria de Cidadãos como nós. E esquecemos que usar a Liberdade, num sentido colectivo, é também saber usar essa faculdade que é o livre-arbítrio, uma possibilidade de escolher, sempre, mesmo quando não se vive em Liberdade. Quando pomos a uso o livre-arbítrio sentimo-nos, e seremos, seres humanos livres. E saber usar é coisa que requer, para além da natural inteligência de cada um, o auto-domínio, esse que, mesmo posto em prática, não nos evita sermos por vezes reféns das nossas emoções mais feridas e, como tal, incómodas. Com a vivência plena da Liberdade instituída surge, nos tempos contemporâneos, uma tendência reflectindo desgaste do seu uso: a proliferação das teorias da conspiração. Exercícios que requerem, e muito, o uso da inteligência mas que são, normalmente, resultado – transparente nos discursos e atitudes – das ditas emoções ameaçadas ou feridas. E tão anti-Liberdade…

Haverá algumas chaves para evitar essas perniciosas teorias da conspiração que, como está visto, atingem já indivíduos eleitos para governar no Novo Mundo, e que servirão para combater esse uso, exacerbado, descontrolado e tão massificado, da louvável, até historicamente, inteligência céptica. Avançarei duas. Não há teoria que resista se não houver provas, evidências, que não cabem a cada indivíduo apurar e é um fardo que recai sobre as instituições; se o tentarmos tomar isoladamente, como se fossemos os únicos inteligentes e capazes de o fazer, sem a humildade necessária, afastamo-nos até ainda mais dos que, excepcionalmente, foram um dia os cépticos inteligentes que mudaram o Mundo e fizeram evoluir a Humanidade. E depois. a confiança básica que é abalada pelo medo, esse sim uma emoção que a História já nos mostrou que, em formato colectivo, foi tão prejudicial à Humanidade, sujeitando esse colectivo a uma existência próxima do, ou mesmo, miserável.

A Liberdade requer benevolência inicial com exigência constante àqueles que escolhemos, conscientemente claro, para serem os que garantem os nossos direitos e nos exigem os nossos deveres. Uma difícil mistura equilibrada entre dúvida e confiança. Bem-vindos à Vida, bem-vindos à Liberdade! Até para a semana.

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