Boletim económico, traduzido para português

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 05 Outubro 2023
Boletim económico, traduzido para português
  • Nuno do Ó

Na oportunidade da apresentação do Boletim Económico de Outubro de 2023, o Governador do Banco de Portugal, essa instituição subsidiária do Banco Central Europeu e dela servidora, sublinhando a previsão em baixa do crescimento do país, referiu e passo a citar, que, (…) mesmo com as taxas de juro nominais estáveis, a taxa de juro real vai aumentar, o que significa que o aperto financeiro não está
concluído, o que significa que temos que ter alguma cautela, com as decisões (…). O que Mário Centeno queria dizer, traduzido para português corrente, é que teremos que manter a cautela com as nossas decisões, nada a ver com as decisões dos CEOs ou dos gestores das TAPs, os tais que recebem mensalmente aquelas pequenas fortunas a rondar os 15.000€ mensais e para quem, mais cem menos cem, nada fará diferença. A mensagem é para nós, para os trabalhadores que produzem a riqueza do país, todos os dias e que vão continuar a sentir a corda a apertar na garganta, cada vez mais.
Ainda referiu, o Governador do Banco de Portugal, desta vez dirigindo a suas sábias palavras para os bancos, em jeito de aviso e volto a citar, (…) aos bancos, requer-se neste momento que cuidem daquilo que são os créditos que concederam, que aproveitem este momento para criar almofadas financeiras
(…). E pronto… está tudo dito e fica claro o caminho do governo e dos chamados socialistas, tal como manda a europa, no seu todo-poderoso entendimento.
Ou seja, os trabalhadores vão continuar a pagar na generalidade, com particulares sacrifícios daqueles que menos auferem mensalmente, os mais fragilizados. Os bancos, por seu lado, devem manter vivos os que ainda conseguem pagar e aproveitar bem esta fase de enriquecimento, promovida pelas autoridades europeias, uma vez que a mesma não poderá durar para sempre, com risco de criarmos pobres de mais, que levem o consumo a níveis de tal forma baixos que comprometam a viabilidade das grandes indústrias e da economia global, essa sim, merecedora de proteção adequada e permanente.
Mais do que a questões das taxas de juro, que sobem por via dos interesses do grande capital, o mais importante e quase sempre esquecido, são os spreads que os bancos aplicam de forma livre e cartelizada, ou seja, a margem dos seus lucros. Mesmo com os lucros anuais dos bancos anunciados com pompa e circunstância na comunicação social, sem vergonha alguma, não lhes passa pela cabeça baixar a margem de lucro sobre as taxas de juro vigentes, que em percentagem, é cada vez maior, subindo designadamente as rendas das casas para valores incomportáveis, que todos conhecemos e que vão paulatinamente, pondo tantos dos que trabalham, à beira da ruína.
Se a regulação das taxas de juro, por via dos acordos europeus, não está em grande medida na mão do governo socialista, com a conhecida habitual falta de voz no círculo dos interesses europeus, regulados pelos interesses próprios da Alemanha, França e dos restantes parceiros europeus de maior peso, já o controle da margem dos lucros dos bancos estaria completamente na mão do governo, se a isso se
atreve-se. Para isso bastaria ordenar ao seu banco, a Caixa Geral de Depósitos, para baixar as suas margens de lucro para valores razoáveis e com isso, reduzir de imediato os valores das rendas pagas pelos empréstimos à compra de casa, e ainda, levar os restantes bancos comerciais a seguir na mesma direção. Eu seria o primeiro a transferir os meus empréstimos para a Caixa, não fosse este um dos
bancos a aplicar as maiores taxas de spread do mercado e percebe-se porquê.
Nada disso, não se vê nenhuma iniciativa nessa direção, conforme a proposta dos comunistas, com receio de comprometer o enchimento da almofada que Mário Centeno referiu. E não haveria nada de novo nisso. Se bem nos lembramos, os spreads aplicados às taxas de juro já tiveram bem perto do zero, quando também as taxas de juro estavam mais baixas. Foi na altura em que nos convidavam a comprar,
que até nos telefonavam, sabendo que mais pagaríamos, lá à frente, onde estamos agora.
Porque agora, com a guerra e tudo o resto, a ordem é esmifrar os trabalhadores ao máximo, para quem nunca há dinheiro, com exceção de tudo o resto.
Parece-me que ficou claro. Não o fazem, porque simplesmente, não querem, por interesse noutros interesses maiores. Seria bom que abríssemos os olhos.

Até para a semana.

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