Borba: Em tons de tristeza

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 26 Novembro 2018
Borba: Em tons de tristeza
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

A semana passada foi uma semana particularmente negra.

Em Borba, a derrocada da estrada 255 num troço ladeado por duas pedreiras retirou a vida a dois trabalhadores de uma pedreira e crê-se que a mais 3 pessoas, ainda desparecidas e que por ali transitavam de carro.

Uma tragédia que acordou finalmente o país para a realidade da zona dos mármores e os riscos das pedreiras.

Uma realidade que era conhecida das entidades públicas incluindo a Economia, a Câmara e a Assembleia Municipal, que sabiam o risco que existia em manter aquela estrada aberta à circulação pública.

O país espantou-se ao ver pedreiras de mármore em contínuo, poços com muitas dezenas de metros de fundo, alguns quase 100, escavadas até à beira da estrada para além dos limites de segurança, num flagrante incumprimento das distâncias e normas legais aplicáveis.

Um território que em algumas zonas aparenta uma paisagem lunar, em que alternam pedreiras desactivadas com enormes montes de escórias, sem que se vislumbre qualquer investimento na reabilitação ambiental e paisagística.

As imagens de satélite mostraram que a Estrada 255 era uma frágil linha entre precipícios, por onde diariamente circulavam muitos veículos particulares e autocarros, muitos de turismo, e todos nós, do cidadão comum ao presidente da República, nos confrontámos com a memória das vezes que por ali passamos, na ignorância do abismo mesmo ali ao lado e com a hipotética possibilidade de o desastre ter sido connosco.

Mas se o desastre que aconteceu nos mostra que há alguns empresários do mármore que exploram as suas pedreiras, mais preocupados com o lucro que com a segurança dos transeuntes e dos seus trabalhadores, também não deixa de nos fazer perguntar qual tem sido o papel das entidades públicas em tudo isto.

Independentemente das responsabilidades concretas de empresários e entidades públicas que venham a ser apuradas, temos que concluir desde já que tudo tem sido feito com a complacência das entidades que têm o dever licenciar apenas quando as regras estão cumpridas, que têm obrigação de acompanhar e fiscalizar a forma como a actividade se desenvolve e os impactos que tem em matéria ambiental e de segurança, não apenas das pedreiras mas também de segurança rodoviária.

A Direção Geral de Economia e Geologia, a ASAE, a Agência Portuguesa do Ambiente, a Inspeção das áreas do Ambiente e Ordenamento do Território são entidades com responsabilidades quando falamos de pedreiras e por isso o Bloco de Esquerda requereu a sua audição – e não apenas a dos ministros – com urgência no Parlamento.

Acontece que infelizmente estas pedreiras cujos poços foram escavados até à Estrada 255 não são caso único. Outros casos há de pedreiras exploradas até ao limite da estrada anunciando a possibilidade de outros casos de derrocada. Nos últimos dias tem-se falado de pedreiras de mármore cujos poços estão encostados a estradas em Bencatel, em Pardais e até na zona de Estremoz junto à Estrada nacional.

São situações conhecidas de quem vive e trabalha na zona. E certamente também dos serviços públicos responsáveis.

Em casos como o de Borba não basta a solidariedade com as famílias das vítimas, com os trabalhadores das pedreiras, com as comunidades afectadas. É preciso que os serviços competentes olhem para estes casos de risco, que fiscalizem e tomem medidas enérgicas para evitar novas tragédias.

E é também preciso olhar mais longe. Quando o sindicato dos trabalhadores do sector e técnicos de protecção civil falam na existência de quase uma centena de pedreiras abandonas no distrito de Évora, muitas em situação perigosa, é preciso que os empresários executem os planos ambientais e de recuperação paisagística e é também preciso que Governo e Autarquias apostem na requalificação ambiental destes territórios e na sustentabilidade das actividades ligadas aos mármores.

É preciso cuidar do presente com o olhar no futuro.

Até para a semana!

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