Brasil: um minuto de silêncio pela democracia

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 29 Outubro 2018
Brasil: um minuto de silêncio pela democracia
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Ontem o Brasil votou e votou contra si próprio.

O Brasil, a pátria da diversidade, escolheu para presidente um homem incapaz de aceitar a diferença.

Ganhou um populista de extrema direita, um homem que assentou o discurso no ódio e na intolerância.

O Brasil vai ter um presidente que anunciou a perseguição ao PT e a prisão do seu opositor, que elogiou a ditadura militar que oprimiu o povo brasileiro e que defende a tortura.

Um presidente que não respeita as mulheres, que é racista, homofóbico e que, para além da defesa do armamento dos cidadãos, defende a esterilização dos pobres como forma de controlar a pobreza e a criminalidade.

Bolsonaro ganhou com uma campanha feita nas redes sociais, com a difusão de notícias falsas sobre o PT e o seu principal opositor, com um discurso primário, incapaz de abordar seriamente as questões económicas e de política internacional, revelando uma enorme impreparação para liderar um grande país.

O discurso de vitória de Bolsonaro deixa antever o que por aí vem.

Emoldurado por apoiantes homens – apenas duas mulheres: a própria e a intérprete – começou com uma oração de agradecimento a deus, de mãos dadas com um pastor evangélico, em claro tributo à IURD, que o elegeu.

E se no seu discurso em que as palavras democracia e liberdade foram repetidas, quando perguntado por um jornalista sobre o que queria dizer para pacificar o país depois de uma campanha tão extremada, nada adiantou.

De resto, é bom não esquecer que durante a campanha foram muitos os ataques e agressões por parte de apoiantes de Bolsonaro, muitos identificados como neonazis, a activistas apoiantes de Haddad. E é bom não esquecer que foram mesmo mortos um mestre de capoeira Môa do Katenê e há 3 dias, durante uma acção de campanha pró Haddad um jovem de 23 anos Charlione Albuquerque. Que fez Bolsonaro para travar os seus apoiantes e estas agressões? Nada.

A democracia brasileira é de baixa intensidade e as instituições têm pouca força, o que levanta muitas dúvidas sobre a forma como irão actuar e como actuará o presidente quando os grupos apoiantes de Bolsonaro atacarem cidadãos de esquerda.

Igualmente nascem muitas dúvidas quanto ao real cometimento de Bolsonaro em respeitar a Constituição. Poderá fazê-lo inicialmente, mas durará pouco a contenção e quando houver notícias, greves ou manifestações que lhe sejam adversas não tenhamos dúvidas que imporá censura e actuação policial sobre os manifestantes e opositores.

Por tudo isto nesta eleição estava muita coisa em jogo. Estavam em jogo os direitos civis; estavam em jogo os direitos sociais; estavam em jogo os direitos dos trabalhadores. Mas sobretudo, estava em jogo a democracia.

A democracia perdeu, apesar de Bolsonaro chegar ao poder com 55% dos votos dos eleitores.

Mas como disse Haddad no seu discurso de derrota, mais de 45 milhões eleitores não se revêm em Bolsonaro e talvez nunca como agora o Brasil tenha precisado tanto do exercício da cidadania.

A resistência começou hoje e coragem não há-de faltar. Solidariedade também não.

Até para a semana!

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