Cá no Faroeste

Crónica de Opinião
Terça-feira, 02 Outubro 2018
Cá no Faroeste
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Temos assistido a episódios que resultam em crimes, veredictos, morte que, num certo imaginário livresco ou cinéfilo , parecem transformar este país ocidental da Europa numa espécie de Faroeste. Falo do roubo de Tancos, da atitude dos juízes que absolveram violadores no Porto e da morte planeada do triatleta no Ribatejo. Roubos, violações, assassinatos, tudo isso, nós sabemos, que a ficção apenas vai buscar à realidade. Existem. Mas existem também, nas sociedades organizadas e contemporâneas, instituições que, pela sua acção, não apenas e só punitiva, servem para prevenir, de forma exemplar e regrada, esses actos que põem em causa o bem estar social.

Ora, no caso de Tancos parece que assistimos a um extremoso zelo em manter intocável uma “vaca sagrada” que é a instituição militar; no caso do Porto, a uma arbitrariedade com pouco uso do bom-senso por parte de membros de topo da Justiça ; e no caso do Ribatejo, a uma frieza de uma assassina, ainda que por julgar, perante câmaras e microfones da Comunicação Social, como se esta se prestasse, contaminando o imaginário contemporâneo, a constituir-se como uma eficaz testemunha abonatória.

Se é característico da contemporaneidade o alarde público como instrumento de incentivo à vigilância do cumprimento de regras, sobretudo dos poderes públicos, parece que o uso alargado desses instrumentos da Democracia corre em velocidades e habilidades diferentes por quem os usa. É que nem as “vacas”, militares ou judiciais, poderão manter-se “sagradas” só porque sim, num dos extremos, nem os “direitos de antena” estão isentos de cumprir um dever de não atentar contra a inteligência de quem são os destinatários das peças noticiosas, confundindo o bom uso que delas se possa fazer. E não, não estou a defender uma outra forma de censura. Estou a falar do que deve ser mantido com a discrição útil para que as denúncias tenham peso real, para que uma banalização não implique uma sacralização da bugiganga, voltando à velha questão das boa e má moedas.

Os excessos, fora das paixões que são os lugares onde estes podem acontecer, e até aí dentro de limites mas fora de falsos moralismos, os excessos podem conduzir-nos a esta ideia de um Faroeste sem lugar certo. Do excesso de zelo ao excesso de complacência, resultando um em perseguição e outro em bandalheira, vemos ainda assim neste jardim à beira mar plantado, acontecerem casos que deles resultam. E isso não é nada saudável para a Democracia.

Até para a semana.

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