Caro Sr. Costa,

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 18 Janeiro 2024
Caro Sr. Costa,
  • Nuno do Ó

Segundo o que julgo saber, o senhor ainda é o primeiro-ministro deste país, ainda que esteja de saída, até ver, porque certamente se arranjará alguma coisa para o fazer passar os próximos tempos, quando acabar por deixar o governo. Estou a escrever-lhe para ver se me consegue tirar algumas dúvidas que ainda me surgem, particularmente nesta hora de reavaliar as nossas escolhas, pelo voto no próximo dia 10 de março.
Não é que esteja indeciso, mas gostaria de confirmar algumas incredulidades que mantenho, sobre assuntos importantes, daqueles que concorrem para que a maioria das pessoas acabem por passar dificuldades extremas em áreas de importância extrema e de primeira necessidade.
Bem sei que a vida não está fácil para ninguém, ou melhor, para si e para muitos dos seus amigos a coisa nem está mal, mas é necessário que perceba que o ordenado médio nacional continua a anos-luz dos rendimentos que se vão arranjando, designadamente, na esfera de influência pública que tutela.
Só para que não subsistam dúvidas entre nós, penso que saberá que o ordenado mínimo nacional subiu agora para os 820 euros e que o ordenado médio nacional português será de cerca de 1.400 euros, muito longe dos 4.900 euros que recebe como primeiro-ministro e até dos rendimentos do seu gabinete, onde os menos abonados serão os pobres dos motoristas, que recebem mais de 2000 euros. É importante que perceba que isto não é comum e que aquilo que a generalidade das pessoas recebe está muito longe do seu rendimento e dos que o rodeiam, ainda mais dos rendimentos dos gestores públicos e famílias, esses também muito acima do seu rendimento de ministro, na casa das dezenas de milhares de euros, imagine!… rendimentos que farão parecê-lo agora um remediado trabalhador. Imagine o que pensarão os restantes trabalhadores!
Ora isto é como a história do frango, na perspetiva estatística, de que alguns tanto gostam quando lhes dá jeito para as contas. Se um português comeu um frango e o outro não comeu nenhum, o que ficamos a saber é que em média, estes dois portugueses comeram meio frango cada um. O que passa fome é que não deverá concordar com a cantiga! Até fica a parecer que o povo pode dar ao dente nos galináceos, mas como sabemos, à conta de quem come aviários inteiros, a malta raramente tem acesso a uma asinha que seja.
O que me pergunto, é se o Sr. Costa e seus amigos não poderiam aliviar um pouco o peso daqueles que apenas vão cheirando o franganito, claro está, sem prejudicar as suas amizades, evidentemente. No concreto, uma das áreas em que os trabalhadores e as suas famílias andam sempre mais aflitos, como saberá, é na habitação. Não sei se sabe, as taxas de juro comerciais aplicadas pelo Banco Central Europeu, já vão nos 4%. Isto quer dizer que as rendas das nossas habitações, estão pela hora da morte e claro está, falo exclusivamente dos que não têm folga no seu rendimento e que evidentemente não fazem parte do seu círculo de amizades, mas que contribuem decisivamente para que os seus amigos possam deitar frangos pela janela.
Quem teve a louca ideia e se atreveu a comprar uma casa em 2022, com 150.000 euros, num ano, passou a pagar o dobro da renda, passou de pagar esforçadamente 460 euros para mais de 800 euros, sem contar com seguros e outras obrigações a que os bancos nos condicionam, sem temor que alguém do governo resolva tomar medidas, claro. Imagine o que isto é para os tais que recebem um ordenado médio, sem falar nos que nem isso têm. Calculo que esses nem contem para si.
Bem sei que na Europa não manda nada e que apenas serve para decorar o ramalhete dos que realmente mandam na coisa, Lagardes e amigos. Mas será que não manda ou não poderá interceder junto dos seus amigos, lá no seu banco, quer dizer, no nosso, na Caixa…? É que quanto à taxa de juro, já estamos falados e percebo, mas quanto à margem de lucro, chamada spread, bem como nas restantes despesas absurdas a que nos obrigam, não será que poderia dar uma palavrinha ao seu amigo que gere a Caixa Geral de Depósitos? É que se ele aliviar o seu lucro, sublinho aliviar e não acabar com ele, eu cá por mim acho que o resto dos banqueiros iria atrás da ideia, para não perder clientes, não acha?
Eu cá mudava-me de imediato para a Caixa, que é o nome carinhoso que damos ao nosso banco, mas sabe, o que se vê, para além da razia de trabalhadores que fizeram há uns tempos atrás, é que a sua taxa de juro é das mais altas do mercado. Por exemplo, para este ano, o spread mínimo mais alto é… o da Caixa!
Faça assim… claro, se puder! Diz aos seus amigos da Caixa para baixar o spread, o valor dos seguros obrigatórios de vida e multirriscos, anula a obrigação dos cartões de crédito ou de outros produtos bancários supérfluos e depois faz como no resto, como no direito à gratuitidade das creches, dos livros escolares, na revogação da caducidade da contratação coletiva, no aumento dos salários dos trabalhadores, na valorização das suas carreiras e no salário mínimo nacional, que ninguém queria!
Foi obrigado, é certo, mas no fim até diz que a ideia foi sua e ainda poderá ganhar mais uns votinhos dos distraídos do costume, dos que o acham uma grande coisa, mesmo sem o ser. Está certo que os seus amigos dos bancos privados vão ficar um pouco chateados, mas o que é isso perante a hipótese de ganhar mais uns votos, hem? Pense nisso. Agradeço a sua atenção e desculpe incomodar.
Até para a semana.

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