Cenário macroeconómico

Sexta-feira, 08 Outubro 2021
Cenário macroeconómico

 

Soubemos esta semana que o Governo entende não ter condições de proceder à atualização salarial dos funcionários da administração pública em 2022, justificando essa decisão no facto do cenário macroeconómico não o permitir. Não se sabe qual ou quais os indicadores que integram o cenário macroeconómico que preocupam o Governo. A ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública não o disse, pelo que ficámos sem o saber.

Não esqueçamos que no ano passado, quando nos encontrávamos em pleno período pandêmico, o Governo prometeu um aumento salarial de 1% em 2022. Este ano, para se escusar de cumprir o que prometeu, alega que o cenário macroeconómico não o permite.

Mas esta leitura do cenário macroeconómico, vista na perspetiva governamental, é nova na medida em que sempre foi elogiado o comportamento dos vários indicadores que integram as projeções macroeconómicas do país a curto e médio prazo.

Talvez por coincidência, também esta semana o governador do BdP mostrou preocupação com a elevada dimensão da dívida externa portuguesa. Recordemos também que a dívida pública, em termos nominais, esteve em permanente crescendo durante os governos de António Costa, tendo atingido máximos históricos. Mas parece que só agora desperta alguma preocupação.

Existem aqui várias incoerências de difícil explicação.

O impedimento agora alegado para a não atualização dos salários não obstaculiza que o mesmo Governo tenha feito aumentar os funcionários públicos para o maior número de funcionários alguma vez existente na administração pública e, consequentemente, aumentando e muito os custos salariais.

O impedimento agora alegado também não irá impedir o crescimento dos salários mais baixos, que pagam o trabalho menos qualificado, continuando a promover-se uma política de nivelar os salários por baixo, subindo os baixos salários, e mantendo os demais, encurtando ano após ano o intervalo que separa os salários e “despromovendo” os trabalhadores mais qualificados, gerando a perda de poder de compra para a larga maioria daqueles que trabalham para as organizações que se integram nas administrações públicas, tanto mais que as elevadas cargas fiscais tendem a perpetuar-se, e os custos dos combustíveis não param de aumentar.

Veremos qual será a leitura que o Governo terá nos próximos anos sobre o cenário macroeconómico, porquanto alguns dos indicadores têm uma projeção mais negativa nos anos seguintes a 2022 do que se prevê para o próximo ano.

Seja qual for o desfecho desta matéria, o Governo ficará sempre vinculado à sua intenção de congelamento salarial. Se ela não se verificar será por alguma “imposição” de forma a aprovar o OE, e não por uma vontade política do Governo. Cede porque irá ceder nalgumas matérias, até como forma de justificar a aprovação do OE com o apoio alargado à esquerda.

Até para a semana

 

 

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