Centro Comercial às Portas d’Aviz: uma estória mal contada (1)

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 18 Junho 2018
Centro Comercial às Portas d’Aviz: uma estória mal contada (1)
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

A questão do Centro Comercial às Portas d’Aviz voltou à ordem do dia.

O Presidente da Câmara insiste em vender terrenos públicos para a construção do centro comercial; apresentou em reunião de câmara um novo caderno de encargos e a seguir retirou-o; afirmou que só avança com a venda se houver consenso, mas vai dizendo que não precisa de nova aprovação da Assembleia municipal.

A forma como a questão tem sido apresentada por Pinto de Sá é tudo menos transparente.

Por isso e enquanto longe dos nossos olhos e dos nossos ouvidos se vão fazendo negociações com os investidores interessados, vamos aproveitar estas semanas para levantar algumas questões que a CDU, maioritária na Camara Municipal, deverá esclarecer.

Comecemos pelo 1.º argumento que tem vindo a ser há anos utilizado: Se as outras cidades têm um Centro Comercial, Évora deveria ter também o seu, não se justificava que os eborenses para fazer as compras se tivessem de deslocar ao Montijo ou a Almada.

Cai bem na opinião publica. Afinal não somos menos que os outros.

Se o argumento até podia colher no passado, perdeu hoje toda a validade: Évora tem um Centro Comercial!

Por isso, inventa-se agora, num refrescamento da narrativa, que se pode ter 1 centro comercial, pode seguramente ter 2.

Ora, os estudos em que a Câmara se tem sustentado – antigos, de 2007, e que se tivessem sido actualizados como o Bloco de Esquerda propôs seriam certamente ainda mais críticos – feitos pela Professora Teresa Barata Salgueiro dizem expressamente que Évora não tem capacidade para ter 2 centros comerciais.

Mas mais que isso:

Os especialistas da Associação Portuguesa de Centros Comerciais e da consultora especializada Cushman & Wakfield, numa análise feita há menos de 1 ano, são unânimes em dizer que depois da inauguração do Évora Shopping e de um outro centro comercial em Loulé, não há espaço para mais centros comerciais no país e que estes devem ser os últimos a abrir.

“O Mercado está maduro, não há espaço para mais, até porque a população não tem vindo a crescer”. E acrescentava ao Expresso, em Setembro passado, Marta Costa, a responsável pela C&W, “depois de Évora e Loulé …o mercado atingiu a maturidade e quem disser o contrário está a mentir”.

Ora, se não há espaço no país para mais um centro comercial como se justifica que o Sr Presidente da Câmara insista em querer abrir mais um em Évora?

Mas a par de não haver capacidade para ter 2 Centros Comerciais, todos sabemos que os centros comerciais existentes noutras cidades estão em grandes dificuldades. Em Leiria, por exemplo, fecharam 57% das lojas existentes nos vários centros comerciais. O do Montijo tem vivido uma situação complicada.

A falência do modelo dos centros comerciais é uma tendência que atravessa este e outros países e que tem vindo a aumentar, quer pelo esgotamento do modelo quer porque outros padrões de consumo e comportamento estão a emergir.

Aliás, face a esta saturação de centros comerciais e ao aumento do turismo, o caminho seguido por outras cidades, numa tendência que está a consolidar-se, é a do reforço das lojas de rua. Como a consultora Cushman & Wakfield diz, no futuro é o comércio de rua que vai sair a ganhar.

E a nossa cidade é especialmente vocacionada para o comercio de rua, com um espaço público privilegiado e as galerias comerciais que são as arcadas.

Ora bem, se a tendência por todo o lado é essa, porque é que em Évora se há-de estar a começar o que nos outros locais está a ser abandonado?

Pelo que cabe perguntar: E se um centro comercial no coração da zona classificada como Património da Humanidade se transformar num fantasma, quem assume a responsabilidade e o custo brutal da reposição? O promotor privado – um qualquer fundo financeiro internacional – que está dispensado de apresentar garantia financeira de salvaguarda para uma situação dessa natureza? Ou o Município está preparado para o garantir e com que recursos financeiros? Ou deixa-se a apodrecer?

E como é que, neste contexto, uma câmara da CDU justifica a insistência em promover um negócio que tem do outro lado um qualquer fundo de investimento imobiliário, mais interessado no lucro que na protecção do património e das pequenas e microempresas comerciais da cidade e é o protótipo do capitalismo financeiro?

Até para a semana!

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