Cheira a fascismo que tresanda

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 28 Setembro 2020
Cheira a fascismo que tresanda
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Cheira a fascismo que tresanda e não é por hoje ser 28 de Setembro, o mesmo dia em que em 1974 a extrema direita nacionalista, alguma cá de Évora, marchou armada rumo a Lisboa, na chamada “maioria silenciosa”, para pôr termo às liberdades conquistadas no 25 de Abril.

A semana que passou trouxe-nos o cheiro dos tempos em que as mulheres eram cidadãs de 2ª ou de 3ªa, privadas da generalidade dos direitos. Um tempo obscuro em que ser feminista era coisa de que não se podia falar, um tempo que julgava afastado definitivamente. Era o tempo da ditadura, o tempo do fascismo.

Andam agora para aí alguns – uns ignorantes outros saudosistas de má fé – a apregoar que esses tempos é que eram bons tempos.

Pois esses eram os tempos em que ser mulher significava não poder aspirar a ser magistrada ou mesmo funcionaria judicial, nem diplomata, e a lei admitia que o marido proibisse a mulher de trabalhar fora de casa. Ir a Badajoz comprar caramelos só com autorização do marido!

Naquele tempo a mulher não tinha direito à tutela dos filhos, que cabia exclusivamente ao pai, nem direito de voto excepto se fosse “chefe de família”.

Nem à privacidade de uma carta as mulheres tinham direito, já que os maridos podiam abrir a correspondência das mulheres. E claro que se não fossem virgens à data do casamento os maridos podiam repudiá-las. O aborto como o divórcio, eram proibidos.

46 anos passados sobre o 25 de Abril, ficámos a saber que um professor da Faculdade de Direito de Lisboa, tem no programa de estudo de direito penal referencias à mulheres como “tribo vítima” e o “homem branco cristão e heterossexual” como “tribo bode expiatório “ e fala do crime de violência doméstica como “ disciplina doméstica”.

Tudo para além de se referir às mulheres como pessoas “desonestas”, “espertas” e “canalhas” e desejar a morte às feministas.

E pergunto-me:

Como é possível numa Faculdade pública admitir-se um programa que viola objectivamente a Constituição da República e Convenções Internacionais de que Portugal é parte?

Como se admite que o Prof Francisco Aguilar, em vez de leccionar, use o seu cargo público para espalhar ódio e humilhar as mulheres?

Mas soubemos também que na convenção do partido Chega foi feita a proposta – dentre outras de igual calibre – de serem retirados os ovários às mulheres que fizessem aborto no SNS, para evitar gastos e trabalhos futuros.

Uma proposta intrinsecamente fascista a que muitos não dão relevo porque, dizem, não foi aprovada e teve “apenas” 15% de votos favoráveis.

Pois é, mas vejamos ao contrário!

Se aqui há uns tempos nos dissessem que um número significativo de membros de um partido – mesmo de um pequeno partido – defendia que fossem retirados os ovários às mulheres que abortassem no SNS, e sublinho só no SNS porque as que fossem a clinicas privadas estariam safas, provavelmente não acreditaríamos ou diríamos que estavam a gozar.

Mas não, não é mentira nem estão a gozar.

São saudosistas de um passado iníquo que se aproveitam agora das liberdades democráticas para instilar na sociedade portuguesa as suas ideias perigosamente retrógradas e o ódio contra um modelo de sociedade em que mulheres e homens tenhamos direitos iguais.

E contra essa gente que quer menorizar as mulheres temos de se ser firmes e claros: não, não vamos deixar voltar o tempo em que às mulheres reservavam apenas o papel de doces e obedientes esposas, parideiras dos seus filhos. Não, não passarão.

Até para a semana!

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