Chico é Chico

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 14 Junho 2018
Chico é Chico
  • Eduardo Luciano

 

 

Dizem-me que estas crónicas não devem ser pessoais. Dizem-me que devo resguardar emoções para espaços mais privados. Dizem que me ponho a jeito para dar a conhecer mais de mim do que devo e que isso me pode fragilizar.

Apesar disso há assuntos que, sendo públicos, só podem ser tratados usando as emoções mais privadas.

Sou dos que esperavam com muita expectativa o concerto de uma das figuras que me merece admiração muito especial. Pela poesia, pela intervenção pública do lado certo da vida, pela forma como afronta o estabelecido dentro das cabeças formatadas para responder correctamente às incorrecções da vida.

Vi um concerto de Chico Buarque em 1980, na Festa do Avante, numa posição particularmente privilegiada e com uma proximidade irrepetível e por isso a minha apreciação sobre a conversa musicada que o Chico teve com o público no Coliseu de Lisboa na passada sexta-feira, será sempre prejudicada por aquele primeiro momento vivido aos vinte anos de idade.

Dito isto, não me levarão a mal que diga que as expectativas criadas não foram completamente satisfeitas e que as emoções provocadas tenham sido diferentes daquelas que me foram oferecidas há trinta e oito anos.

Não gostei do som, não gostei dos telemóveis ligados, não gostei do comportamento de parte do público que assistiu ao concerto de através dos múltiplos écrans de telemóvel e tabletes.

Do Chico, gostei. A mesma postura de sempre, a mesma honestidade na abordagem dos temas, a mesma cumplicidade com os outros músicos, a mesma forma genial como a ironia é potenciada pela postura crua em palco.

Não foi o concerto da vida, mas foi a confirmação que a coerência como forma de estar na vida coloca o criador num patamar diferente e que permite que as supostas imperfeições sejam o que nos aproxima da humanidade de quem cria.

De todas as canções que o Chico nos ofereceu, cantei com particular emoção o velho e famoso hino à hipocrisia que dá pelo nome de “Geni e o Zepelim”.

Talvez porque durante a minha vida me senti várias vezes como a Geni, “bom para apanhar e bom de cuspir”. De me sentir a maldita Geni.

Coisas intemporais que só os imortais conseguem transformar naquilo que Chico Buarque de Holanda transformou. Numa história de vidas.

Foi uma crónica sobre música? Nada disso. Foi uma crónica sobre um concerto? Nada disso. Foi uma crónica sobre uma postura perante a vida. A do Chico.

Momento alto do concerto? Quando o público gritou em uníssono “fora Temer” acompanhado pelos acordes vigorosos da guitarra do Chico.

A minha prima Zulmira, que também assistiu ao concerto, escolheu outro momento. Quando alguém ofereceu um cravo ao poeta e ele o ergueu para que todos nós víssemos que a flor ainda não murchou no nosso jardim e que apesar de tanto mar revolto, nós continuamos aqui.

Até para a semana