Cidades irmãs

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 05 Janeiro 2023
Cidades irmãs
  • Sara Fernandes

Contava a minha mãe, lembrando a sua viagem ao festival de teatro de Avignon/França, em finais dos anos 60, que, cúmulo da injustiça, na sua perspectiva de antifascista militante, com tudo o que essa postura implicava nessa altura salazarenta, tinha sido insultada por um grupo de franceses, que lhe chamaram “colonialista”, “fascista” e mais um par de insultos, apenas por ser portuguesa e porque o regime da altura no nosso país, promovia uma política colonial, mantendo uma guerra sangrenta durante anos a fio contra povos que apenas defendiam o direito à soberania nacional.

 

A diferença entre a responsabilidade dos povos e a dos seus dirigentes é, por vezes, ténue e fortemente correlacionada, mas, diz-nos a História e, já agora, a nossa humanidade, que o desejo de fraternidade e solidariedade entre os povos é intrínseco à nossa condição humana, mesmo que essa premissa nos pareça algo ingénua e mesmo absurda em certos momentos da nossa contemporaneidade. Eu acredito profundamente que assim é, em escalas maiores do que os nossos tempos e maiores do que as nossas vidinhas.

 

Nem poderia ser de outra forma. A evolução da espécie humana tem-se baseado nos princípios da solidariedade, da comunidade e da partilha. E não estou de todo a referir-me ao espectáculo deprimente da subjugação pela caridade, que tanto apraz aos que, simultaneamente, promovem Autos de Fé em versões modernas.

 

Obriguei-me a esta reflexão a propósito da decisão, e manifesta impaciência e insistência, dos autarcas eborenses, socialistas e sociais-democratas eleitos na Assembleia Municipal, pela suspensão da geminação de Évora com a cidade russa de Suzdal.

 

A decisão, tomada em Assembleia Municipal em Setembro de 2022, que confirmou, com os votos do PSD e PS a deliberação da Câmara Municipal (com os votos dos mesmos partidos) para a suspensão do Acordo de Geminação com a Cidade Russa de Suzdal, não deixa de me incomodar. 

 

Suzdal, pequena cidade histórica na província de Vladimir na Rússia, com cerca de 10 000 habitantes, é também geminada com seis outras cidades: na Alemanha, Itália, França, China e duas nos Estados Unidos. Com Évora o acordo foi assinado em 1986. Foi, aliás, a primeira cidade que se tornou nossa irmã por vontade firmada de ambas as cidades. O protocolo era fundamentalmente cultural, esta nossa cultura que, recentemente, a Europa escolheu para ser sua representante em 2027.

Dos relatos que li e ouvi da altura, a simpatia com que receberam a delegação de Évora, a forma como colocaram nesse acordo de amizade entre povos a esperança num mundo melhor e mais solidário, contrasta com esta pressa de represália, não aos dirigentes, mas às populações. Não consigo compreender esta decisão, parece-me ilógica, imponderada, apressada e baseada em valores que não são os que me movem na vida política. 

 

Apelo assim, a quem esteve envolvido nesse acto de amizade, ou que veja a tamanha aberração que é esta suspensão, que se pronuncie publicamente contra a agressão, (como agredida se sentiu, em tempos idos em Avignon, a minha mãe) que estamos a querer infligir a um povo que se dispôs a ser nosso irmão. Não está na nossa génese, não é um acto que uma cidade que será Capital Europeia da Cultura se possa orgulhar ou exibir. 

 

Em fase de balanço de final de ano e recomeço de outro permitamo-nos subir ao patamar de cima do humanismo e passar à escala que nos tem feito evoluir enquanto espécie.

 

Que o ano de 2023 seja mais justo e solidário, não só para os que me rodeiam, mas sobretudo para os que sofrem pela ganância de uns e passividade ou ignorância de outros.

 

Até para a semana!

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