Com a verdade nos enganam

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 24 Junho 2020
Com a verdade nos enganam
  • Alberto Magalhães

 

 

Que os jornalistas portugueses não gostam de Donald Trump, nem de Jair Bolsonaro, é evidente e consideravelmente compreensível. Eu também não gosto de qualquer deles. No entanto, irrito-me sempre que as notícias são dadas de forma tão enviesada que levam à desinformação do público, em vez de o esclarecer. Vou dar um exemplo, com os números da pandemia.

Frequentemente, ouve-se nas notícias: “os EUA já são o país com maior número de casos; já são mais de 2 milhões e 400 mil infectados e ultrapassaram as 120 mil mortes”, ou “no Brasil, o número de casos ultrapassou o milhão e já há mais de 50 mil mortos por covid-19”. Ora, esta forma de noticiar, omitindo que os EUA têm 330 milhões de habitantes e o Brasil 213 milhões, não é séria, apesar de fornecer o número oficial de mortos ou infectados.

O mínimo que se pode exigir de um jornalista, nestes casos, é que apresente os números de maneira a permitir comparações menos enganadoras com outros países. Se se disser que nos EUA a mortalidade por covid-19 é de 373 por milhão de habitantes, podemos comparar a situação com a portuguesa, onde a taxa é de 151 mortes por milhão. Mas também perceberemos que muitos países europeus não podem ensinar nada aos americanos. No Reino Unido, por exemplo, a taxa é de 632 mortos por milhão. Mas na Bélgica está em 838, na Espanha em 606, na Itália em 573, na Suécia em 511 e na França em 455. Todos acima dos 373 por milhão dos EUA, número que, multiplicado por 330, os milhões de habitantes do EUA, dá as 123 mil mortes que nos pareciam uma calamidade sem paralelo.

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