Começo pelo que mais gosto

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 22 Setembro 2022
Começo pelo que mais gosto
  • Sara Fernandes

Aceite o desafio da Rádio Diana para me juntar ao grupo de cronistas “crónicos” há que decidir por onde pegar. Ponderados os lados mais pessoais, mais políticos, mais gerais ou mais profissionais, decido começar pelo que mais gosto e que, nos últimos tempos mais me ocupa: o Associativismo Popular.

Os quatro anos em que fui vereadora na Câmara Municipal de Évora, abriram-me as portas a uma cidade até então apenas vislumbrada. A sensação foi de quem, com falta de vista sem o saber, de repente coloca os óculos prescritos. Abriu-se uma escala a que eu não tinha acesso e senti a cidade a borbulhar de vontades e capacidades fantásticas organizada em torno das Associações, Colectividades e Clubes.

O movimento associativo popular é uma força social que não se pode ignorar. Os seus dirigentes são pessoas de uma generosidade sem par no conjunto dos actores sociais e o seu efeito, aquele que vem com a carroça que muitas vezes puxam, é de importância capital na prevenção do isolamento, dos comportamentos aditivos e da doença mental. As Colectividades, Clubes e Associações que constituem o Movimento Associativo Popular suprimem, na verdade, graves carências sociais, substituindo, muitas vezes, o Estado nas suas responsabilidades. Contribuem nas áreas da cultura, do desporto, do recreio, mas também da actividade reivindicativa, ambiental, educacional e assistencial.

Em Portugal há uma forte tradição neste campo, apesar dos 48 anos de ditadura obscurantista. Talvez, nessa época negra da nossa história, se tenha apurado ainda mais a vontade de actuar em conjunto, num espírito comunitário perigoso para o regime.

São inúmeros os exemplos marcantes ao longo da nossa história: dos Bombeiros às Casas do Povo, dos grupos de teatro amador às bandas filarmónicas, do clube de futebol de bairro ao campeonato de malha, da Associação de Idosos ao Grupo de Jovens. Em comum têm o património da partilha e o gosto do trabalho colectivo. São estruturalmente escolas de democracia participativa e locais de aprendizagem política.

Para termos uma ideia da dimensão do que estou a falar, de acordo com a Conta Satélite da Economia Social – 2013, são cerca de 30 000 as entidades da Economia Social na área da Cultura, Recreio e Desporto (se tomarmos em média 15 elementos nos corpos sociais, estamos a falar de 450 000 dirigentes só nestas 3 áreas), mais cerca de 10 000 organizações na área da Acção e Segurança Social e 3000 na área do Desenvolvimento, Habitação e Ambiente. Pela sua dimensão, estas entidades deviam ser mais vezes ouvidas pelos órgãos de soberania. Ainda assim, desde 2012 que a Confederação Nacional de Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto integra o Conselho Nacional para a Economia Social, Órgão consultivo do Governo, para as questões ligadas à dinamização e ao crescimento da economia social. Infelizmente as propostas concretas levadas à AR têm sido sistematicamente rejeitadas.

Dou apenas dois exemplos de 2021:

  1. Proposta de Transferência de verbas do Ministério das Finanças para o IPDJ, destinadas ao apoio às associações sem fins lucrativos através do Programa de Reabilitação de Instalações Desportivas (PRID).

A favor: PCP; BE; IL; CH; PAN

Abstenção: PSD

Contra: PS

Conclusão: Rejeitada

  1. Isentar de IRC os rendimentos das coletividades desportivas, de cultura e recreio, com rendimentos brutos, sujeitos a tributação, inferiores a 30 000€.

A favor: PCP; BE; PAN; IL; CH

Abstenção: PSD

Contra: PS

Conclusão: Rejeitada

Apesar das dificuldades que vivem no dia a dia, muitas delas, como referi, consequência das vontades políticas, sei que os dirigentes associativos do nosso Concelho vão continuar a batalhar pela sua colectividade, para que não esmoreça o espírito associativo que a criou e para dar à população que serve motivos para se unir e trabalhar pelo bem comum. A eles dedico esta primeira crónica!

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com