Começou mal

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 07 Janeiro 2021
Começou mal
  • Eduardo Luciano

 

 

Poucas horas tinha o novo ano de existência e desaparecia Carlos do Carmo. Não era apenas um fadista ou um cantor ou um homem bem-educado. Era muito mais que isso. Era um homem de cultura e da cultura que tratava com todo o respeito a sua língua e os seus poetas. Alguém que nunca precisou fingir ser o que não era para obter popularidade à conta de um qualquer engajamento da moda.

Carlos do Carmo acabou a sua vida respeitado por quase todos sem nunca precisar de trair pensamentos ou esconder dúvidas e divergências.

Ainda não se tinha concluído o quinto dia do ano e desaparecia João Cutileiro. Figura maior da escultura em pedra, sem medo de assumir as rupturas estéticas necessárias para afirmar a tão temida contemporaneidade por parte dos conservadores do traço certo e da forma perfeita.

Um homem que sabia que uma opinião unanime sobre um qualquer objecto artístico saído das suas mãos, significava que a obra era menor. Felizmente, não me lembro de tal ter acontecido.

Vamos no sétimo dia do ano e já tivemos vários debates entre candidatos presidenciais onde se destaca a competência e o conhecimento de João Ferreira mas onde participa um concorrente que, quarenta e seis anos depois de Abril, é capaz de afirmar que defende uma ditadura dos “portugueses de bem”. Deduzo que quem classificaria os portugueses seria o tal homem providencial que separaria “a bandidagem”, no linguajar do candidato, dos tais “portugueses de bem”.

Ainda não passaram sete dias e já o esgoto a céu aberto se manifesta na pior demagogia de sempre, usando como pretexto a pandemia e os infectados em “lares” pelo Alentejo fora.

Acabei a última crónica de 2020 com uma mensagem de esperança e quero acabar a primeira de 2021 com a mesma mensagem.

Deixo-vos com o que considero (modestamente) a canção perfeita, cantada numa dicção perfeita, com um poema que celebra a espera pelo amor transformado em estrela da tarde.

Se houve gente capaz de cantar o amor como o Carlos do Carmo, ou fazer nascer da pedra as figuras que Cutileiro nos deixou, também no espaço público, só poderemos ter a certeza que “atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir”.

Mas não podemos esperar por eles, temos de ter a coragem de os fazer acontecer.

Até para a semana

Bom ano e fiquem com a “Estrela da tarde”

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