Comemorar o aniversário sem o aniversariante?

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 04 Março 2021
Comemorar o aniversário sem o aniversariante?
  • Eduardo Luciano

 

 

A 6 de Março o PCP celebra cem anos de existência. Temos por hábito assinalar com especial enfase o que designamos por números redondos, em especial quando se trata de um centenário.

Neste caso estamos perante um Partido que viveu quase metade da sua existência sujeito a perseguições, prisões e torturas dos seus militantes, mas que nunca abandonou a luta pela liberdade e pelo fim da ditadura.

Percebe-se, pois. que seja dada uma especial atenção ao aniversariante e que a comunicação social produza notícias, oiça testemunhos, analise a importância da sua intervenção e convide quem bem entender para falar sobre a existência de um Partido com tal longevidade e coerência na prossecução dos objectivos que nortearam a sua fundação.

Tenho percorrido jornais e revistas e, salvo raras e honrosas excepções, conseguem falar sobre o centenário do Partido Comunista ouvindo tudo o que é “opinadeiro”, “historiador”, especialista em “ciência política” e outras ciências ocultas, que discorrem sobre o que desconhecem, citando-se uns aos outros tentando demonstrar que o aniversariante já não comemorará muitos mais aniversários.

Nada contra a que se oiçam todas as vozes sobre a efeméride e que cada um diga o que entender sobre o assunto, mas não lhes ocorrerá dar voz a um ou outro militante do PCP sobre os 100 anos do seu Partido? Será que entendem desnecessário ouvir o que os comunistas têm a dizer sobre isso?

Dir-me-ão que é desinteressante ouvir um militante elogiar a longevidade do seu Partido e afirmar que por cá andará a perseguir os seus objectivos programáticos. Mas já não acham desinteressante ouvir repetidamente a voz dos que estão sempre a anunciar o funeral do Partido e tentar descobrir uma ou outra lenda que possa corroborar as suas opiniões?

Mesmo sabendo que os anúncios de declínio feitos por tão boa gente (normalmente justificados em percentagens eleitorais) é a prova de que o PCP está vivo e não abdica da sua luta, um pouco mais de isenção ou pelo menos de busca de outras opiniões, não faria mal e pelo menos sempre dava um ar de decência ao exercício.

Um exemplo muito particular do que afirmei é o número da Revista História dedicado ao centenário do PCP.

Desde a cronologia até aos diversos artigos, que são apresentados com uma aura de cientificidade que pretendem demonstrar equidistância, tudo cheira ao mesmo de sempre mesmo quando parecem elogiosos nas linhas e manhosos nas entrelinhas.

Como nem tudo são artigos “académicos”, há uma grande entrevista sobre o PCP. É ao secretário-geral do Partido? É a um dos militantes que foram dirigentes e que passaram pelas diversas vidas do Partido, da clandestinidade à democracia?

Nada disso. A grande entrevista sobre o centenário do PCP é a José Pacheco Pereira.

Bem sei que lhes dava jeito assinalar o aniversário do PCP com o aniversariante ausente, mas nem a ditadura com os seus meios mais violentos o conseguiu.

Até para a semana

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