Comparações bem escusadas

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 25 Maio 2020
Comparações bem escusadas
  • Alberto Magalhães

 

 

Em Agosto de 1970, um mês depois da morte de Salazar, dirigi-me com um grupo de amigos para a mata dos Salesianos do Estoril onde o José Cid, então Quarteto 1111, tinha convencido a Junta de Turismo da Costa do Sol a assumir a organização do que seria assim uma espécie de festival tipo Woodstock à portuguesa. Para que se perceba o espírito que levávamos, convém especificar que transportávamos víveres para um piquenique, incluindo uma melancia grada e um garrafão de tinto.

Instalados perto do pequeno palco, fomos informados, pela organização, seriam umas cinco da tarde, de que o festival tinha sido proibido. Contestação, assobios, barulho e, de repente, no cimo da ligeira colina, bem atrás do palco, vemos surgir, em contra luz, como sombras chinesas, os polícias de choque e os seus cães. Debandada geral. Já do outro lado da marginal, junto à estação de comboios, viro-me e vejo um oficial bater, com o seu pingalim, num guarda que espancava, como cão enraivecido, um pobre festivaleiro caído no chão. A loucura estendeu-se às esplanadas, nesse tempo finérrimas, das arcadas, onde até uma filha de um ministro, levou bordoada.

Tudo isto para vos dizer que, quando os cães-polícias e os polícias-cães resolveram atravessar a marginal e perseguir-nos, restou-nos, atravessar a linha do comboio e correr para a praia, a praia do Tamariz. Espantosamente, os polícias chegaram à beira do paredão e estacaram. A praia, domínio público marítimo, estava-lhes interdita. Na praia mandava o cabo-do-mar, ou seja, a polícia marítima.

Lembrei-me disto, quando vi uma fotografia, este fim-de-semana, de um agente da PSP, montado numa moto-quatro, à beira-mar, fiscalizando os banhistas. Imaginei os mandantes de antanho a reflectirem: ‘Não, nós somos fascistas, a nossa PSP é fascista, não deve entrar nas praias, para não incomodar os banhistas. Se fosse uma polícia democrática, então sim, poderia entrar nas praias, talvez mesmo coadjuvada pelos mílicos militares, com o nobre fito de evitar a desordem e o caos, nesses lugares de perigosa relaxação”.

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