Comunicar coisa nenhuma

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 15 Novembro 2018
Comunicar coisa nenhuma
  • Eduardo Luciano

 

 

Dois homens foram detidos no último domingo. A razão que levou às detenções prendem-se com factos ocorridos em Maio e tiveram, nessa altura, honras de primeira linha noticiosa que durou duas semanas.

Hoje é quinta-feira e as televisões, jornais, rádios e sítios de notícias continuam a falar do assunto com imagens de portões de postos policiais, nucas de familiares e polícias, opiniões de idiotas que condenam hoje o que glorificavam ontem e que tiram conclusões sobre factos que poderão não o ser.

Não é a primeira vez que se regista este comportamento perante uma detenção para interrogatório de figuras que andaram ao colo dos que agora pretendem fazer-nos espreitar pelo buraco da fechadura, para sabermos em pormenor coisas que não têm importância nenhuma para a nossa vida colectiva, mas desta vez subiram mais um patamar na capacidade de chafurdar no chiqueiro que alimentam diariamente.

São os únicos culpados? Claro que não. Quem avisa esta gente do que vai acontecer, para que estejam à porta do suspeito com o circo montado, tem mais responsabilidade do que os responsáveis do espectáculo. Quem permite e promove espectáculos em torno da nomeação de um juiz, como aconteceu recentemente noutro processo, devia saber que este não é o caminho da transparência mas do fim da justiça como um bem a ser preservado como pilar da civilização.

Todos sabemos a quem serve tudo isto. Basta pensar que enquanto estamos todos de rabo para o ar a espreitar pelo buraco da fechadura, para tentar saber de que cor são as paredes da cela onde detiveram as figuras, o ministro do ambiente sugere que a forma de baixar a factura da electricidade é reduzir a potência contratada e isso nem sequer é alvo de qualquer movimento de indignação.

A anestesia tem o condão de permitir que nos escarafunchem nas feridas sem que sintamos dor e é isso que nos servem dia e noite em doses cavalares de voyeurismo, mau jornalismo, manipulação básica e indigência intelectual.

É por isso que quando entramos num café e olhamos para a televisão pendurada na parede, dizemos já estou farto de ver a cara destes personagens e ainda assim não desviamos o olhar.

Já vi hipnotizadores menos eficazes.

Até para a semana