Contas de um país adiado

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 19 Outubro 2023
Contas de um país adiado
  • Alexandra Moreira

A agenda política nacional desta semana ficou marcada pelo regresso à Assembleia da República dos debates quinzenais com o primeiro-ministro.
Como era de prever, o debate de ontem centrou-se na proposta de orçamento do Estado para 2024 e nos problemas estruturais que se vão agudizando de dia para dia, desde o colapso do Sistema Nacional de Saúde à crise da Escola Pública.
Ouvindo o otimismo de António Costa e dos seus ministros da Saúde e da Educação sobre o país que dizem governar, enquanto exibem os rasgados sorrisos de quem está de consciência tranquila, confesso que, por vezes, até me esqueço que falam de Portugal.
Não é, portanto, de espantar a proposta de orçamento que o ministro das Finanças, radiante e cheio de si, apresentou para o país, sob o mantra da redução da dívida pública. E, à semelhança deste ano, anuncia-se um resultado excedentário. De realçar que, entre os países da moeda única, apenas Portugal, Irlanda e Chipre prevêem excedente orçamental para 2024.
É evidente que é importante conter a divida pública, seja para cumprimento das regras orçamentais da União Europeia, seja para reduzir a pesada fatura decorrente do aumento das taxas de juro.
Mas a prossecução desse objetivo não deve sacrificar outros objetivos prioritários como sejam a procura da paz social por via da satisfação de demandas legítimas de profissionais de setores tão essenciais como a Saúde, a Educação ou, ainda, a Justiça, aqui aludindo às justas reivindicações dos funcionários judiciais. Tudo isso, na medida ajustada às possibilidades do país, claro.
Mais do que de continhas certinhas, precisamos de respostas sociais suficientes e eficazes, de promover o crescimento e o bem-estar social, apoiando as pequenas e médias empresas, em particular na área da Economia Verde, de criar reais incentivos, designadamente fiscais, à fixação no interior, apostando seriamente na coesão social.
Portugal é o sétimo país com menor Produto Interno Bruto (PIB) per capita da União Europeia. Na verdade, o bem-estar económico dos cidadãos nacionais está muito longe de atingir a média europeia.
Na sua magnífica obra “Os Maias”, Eça de Queiroz, pela voz de Carlos da Maia, dizia que “este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem caráter para criar um feitio seu, manda vir os modelos do estrangeiro, modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha…”.
Pois eu cá não me importava nada que Portugal mandasse vir os “modelos do estrangeiro” europeu, e que, sem originalidade alguma, os copiasse, quer em teoria, quer em prática. O problema é a insistência nos atavismos nacionais que nos remetem para um constante país adiado.

Até para a semana.

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