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Crónica de Opinião
Terça-feira, 27 Novembro 2018
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  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Será que a expressão “politicamente correcto” é assim tão polissémica, ou polivalente, num mesmo contexto espácio-temporal? Será que um mesmo grupo de cidadãos, ainda que com ideologias diferentes mas com funções e responsabilidades semelhantes pode utilizar, sem ser para iludir, a expressão “politicamente correcto”, num jogo de regras flutuantes em que parece que o “politicamente incorrecto” é o novo “politicamente correcto”? Ou, concretizando até ao limite do que quase me parece anedótico e, portanto, merece retrato caricatural, e para esclarecer o recente exemplo que também me trouxe a esta crónica de hoje: será que quem vive preocupado com animais e com pessoas (que até são de quem dependem os primeiros que são domésticos) pode considerar que assim como existe um SNS deve haver um SNV (V de veterinário), assumindo-se implicitamente que já está tudo resolvido no primeiro para ser óbvio, ou até só uma boa ideia, criar-se o segundo? Mas de uma forma geral: poderá um cidadão comum minimamente atento levar a sério quem recusa o “politicamente correcto” e, simultaneamente, assumir funções políticas, e portanto de gestão da “coisa pública” e opções que afectam um colectivo, seja em que nível for?

O que será que faz com que um advérbio (politicamente) mude de sentido – de positivo para negativo – se o adjectivo (correcto) se mantém e parece estar no lado do certo (vs errado) e dar origem a uma expressão que, na sua forma composta, qualifica comportamentos pouco fiáveis? E será que a fórmula oposta – “politicamente incorrecto” – pode dar uma pista de conduta eticamente aceitável, ou tem que se disfarçar com o truque eufemístico e passar a “não politicamente correcto” para aliviar a consciência? Ou estarão as palavras tão gastas, como dizem os Poetas, que até quem vive maioritariamente de fazer passar ideias e ensinamentos através, precisamente, das palavras cede talvez à preguiça de ter de explicar “o que quer dizer com aquilo”, ou talvez ao receio de não estar a falar senão para alguns e perder seguidores? E será que com isto estaremos a assistir à assunção de que ter e defender uma ideologia já não interessa nada a ninguém? Nem aos que trabalham a expor ideias próprias e a sustentá-las argumentando?

Será que “politicamente correcto” ainda carrega o peso histórico da sua origem, não tão remota assim, em que estes termos foram usados por socialistas contra comunistas, para se separarem dos dogmáticos que defendiam todas as posições partidárias independentemente de sua substância moral? Se assim ainda é, não será altura – quando até estamos, nós por cá, tão pioneiros politicamente – de fazer escola na discussão e defesa de ideias morais igualitárias, no sentido de caminharmos não para unanimismos atreitos a totalitarismos, mas para a razoável igualdade de oportunidades que essa declaração de intenções com que, em princípio, todos os Políticos se propõem em Democracia para serem isso mesmo: decisores e gestores do que é de todos?

Se a Democracia é o sistema político que não se rende a certezas, à “Verdade”, ou não haveria eleições nem a possibilidade de alternância governativa, não seria recomendável dar atenção ao que adjectivamos como “politicamente correcto” para que pudessem os eleitores ser ajudados no acto eleitoral a optar conscientemente? Assim como o advérbio que ajuda a modificar o verbo…? Ficam as perguntas.

Até para a semana.

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