Cosmopolitismo

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 08 Junho 2017
Cosmopolitismo
  • Eduardo Luciano

 

 

Começou ontem o Exib Musica, mercado e música ibero-americana e, em simultâneo, a Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central fez acontecer em Évora uma conferência internacional sobre ecossistemas criativos.

Não vou discorrer sobre o mérito destas iniciativas ou mesmo sobre o seu conteúdo. Quero apenas conversar sobre este momento em que a cidade se enche de gente que não a habita actualmente e que nos vai dizendo o que pensa sobre a cidade a que chega, alguns deles após muitas horas de voo.

Para quem gosta da cidade onde vive e não tem nenhum problema que só a psicanálise pode resolver, enche-se de satisfação com a forma como este espaço é encantador para quem chega, seja pela luz única, seja pela beleza do seu património ou pela fantástica sensação de segurança que permite passear tranquilamente a qualquer hora do dia ou da noite.

Mas estas centenas de pessoas que chegam para o Exib ou para a Conferência, não são apenas bálsamos para a nossa autoestima, são também fontes inesgotáveis de conhecimento quando nos transmitem a sua visão das cidades de origem sem a mediação de qualquer comunicação social.

São transformadas pelo contacto connosco e transformam a cidade deixando experiências e aspectos essenciais das suas culturas, obrigando-nos a romper com o denso nevoeiro que se vai formando quando se vive em circulo fechado, moído pelas intrigas locais, algumas delas com séculos de existência.

Há quem entenda que a identidade de uma cidade se preserva repetindo tradições, cultivando a lógica do “nós e os outros”, fechando as suas fronteiras para tratar dos que cá vivem, em circuito fechado e com o mínimo de contaminação possível.

Na minha opinião esse é o caminho para a asfixia, para o lento definhamento, para a morte num prazo mais curto do que se imagina.

Eu sou dos que acham que as trocas de experiências culturais, a aprendizagem de outras formas de estar são o alimento para a nossa sobrevivência, para o nosso desenvolvimento e para o reforço dos nossos traços identitários na construção permanente de novas identidades.

Que bom foi ouvir repetidas vezes, em castelhano dos dois lados do Atlântico, “tu ciudad es preciosa”. Que bom que é poder sentar-me numa esplanada e conversar com um umexicano, um venezuelano, um peruano, sobre as nossas diferenças e semelhanças e enriquecermo-nos mutuamente.

Desculpem lá esta minha presunção, mas uma cidade ou procura o cosmopolitismo ou será sempre uma aldeia rodeada de muros que passará o tempo à espera que o último bardo cante a última canção pura, provavelmente no funeral do último autóctone devidamente certificado como tal.

Até para a semana

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