Crónica que não era para ser

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 19 Outubro 2017
Crónica que não era para ser
  • Eduardo Luciano

 

 

No início da semana, a propósito de um dia internacional para a erradicação da pobreza, decidi que a crónica de hoje seria sobre esta coisa perfeitamente descabida que é o facto do sistema que promove a pobreza, em função da necessidade de criar riqueza para uns quantos, instituir um dia do ano para celebrar a necessidade da erradicação da pobreza.

Será qualquer coisa como os amantes das touradas instituírem o dia da erradicação do sofrimento dos touros, ou os amantes da caça instituírem o dia da erradicação das caçadeiras.

Depois de ouvir a dirigente do CDS e o militante do PSD que é Presidente da República a usarem as vítimas dos incêndios como arma de arremesso político, achei que afinal esta crónica deveria ser sobre a falta de decência de PSD e CDS a armarem-se em defensores das famílias das vítimas, quando foram os responsáveis durante 40 anos, juntamente com o PS, das políticas de ordenamento do território, de abandono do interior, de políticas florestais que promoveram a “eucaliptização” do país, da subserviência aos interesses da indústria da celulose, do desinvestimento em prevenção, da ausência de apoios a quem tem por missão prevenir e combater os incêndios.

Acontece que estou em Vila Franca de los Barros, na Extremadura, a participar na 1.ª Conferência sobre o sector musical da Extremadura.

Com tanta coisa interessante, entre contactos e pequenos espectáculos, fui brindado ontem à noite com um espectáculo de flamenco que me deixou absolutamente sem vontade de acrescentar mais palavras aos debates sobre a suposta luta pela erradicação da pobreza, ou sobre quem tem responsabilidades na criminosa onda de incêndios que matou mais de uma centena de pessoas, cujo único erro foi estarem no sítio errado à hora errada.

A apresentação dos “Extremadura Pura” é daquelas coisas que nos conseguem pôr a pensar em como é essencial preservar identidades culturais e como não tem preço o investimento público necessário para manter viva a cultura em territórios de baixa densidade populacional.

Assisti a uma apresentação onde tudo o que acontece sai do sentimento de quem canta e toca, sem preocupações maiores de falsas dramatizações ou ajustamentos técnicos para efeitos especiais.

Tudo corre à flor da pele e ouvir as vozes de La Kaita e de Alejandro Vega, ou ver o velho El Peregrino a sapatear como se tivesse 20 anos, transportam-nos para lugares onde antes vivia e trabalhava gente e onde agora só existem aldeias despovoadas e tecnocratas que nos falam de falta de escala para que o investimento em cultura possa ser rentável.

São os mesmos que hoje choram os mortos que resultaram de 40 anos das suas políticas, que também lamentam a litoralização do país pela ausência de capacidade de fixar populações em mais de metade do território e que também nos dizem que produzir cultura no interior é demasiado caro para as outras prioridades que rapidamente enumeram.

E pronto, não falei sobre nada que tinha previsto falar. Nem incêndios, nem erradicação da pobreza, nem identidade cultural em definhamento no interior do país.

Até para a semana

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