CTT, uma história exemplar

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 04 Janeiro 2018
CTT, uma história exemplar
  • Eduardo Luciano

 

 

Vivemos o tempo em que se glorifica a iniciativa privada, a suposta superioridade da sua gestão pragmática e focada no lucro.

Notícias, comentários e análises mais ou menos superficiais vão-nos convencendo que o que é privado é que é bom e eficiente, por contraposição com a gestão pública que será desastrosa e, porque lhe faltando a motivação do enriquecimento individual, nunca poderá atingir patamares de excelência.

Os empreendedores que parecem produzir o milagre da multiplicação do capital são os heróis destes tempos em que o bem comum é apresentado como uma utopia inalcançável e apenas aceitável enquanto tema de obra literária.

Acontece que quando a propalada excelência dos méritos da gestão privada entra em falência é ao Estado, financiado maioritariamente por quem trabalha, que os génios da iniciativa privada vêm buscar o conforto que lhes permite continuar a sua actividade ou sair dela pelo menos tão ricos como entraram.

Todos nos lembramos dos bancos salvos pelos dinheiros públicos, que não existiam para aumentar pensões e reformas.

Claro que quando no governo estão agentes entusiasmados da “economia de mercado” também existem decisões que dão uma ajudinha ao princípio da “mão invisível”, como aconteceu quando decidiram colocar nas mãos de interesses privados uma empresa pública lucrativa e que realizava um serviço público essencial, como é a distribuição postal.

Passados alguns anos, a empresa lucrativa que estava na esfera pública deixa de prestar o serviço público que sempre tinha prestado, tem resultados negativos e prepara-se para encerrar dezenas de estações e despedir centenas de trabalhadores.

Desta vez o custo dos “erros de gestão” irá ser pago pelos trabalhadores da empresa e pelas populações que se verão privadas de um serviço de distribuição postal de proximidade que sempre tiveram.

Agora, os arautos da superioridade da gestão privada procuram explicações para o insucesso, nunca admitindo que as actividades económicas que produzem serviços públicos essenciais são demasiado importantes para serem deixadas nas mãos de interesses que não têm em conta o bem comum.

Reverter a privatização dos CTT parecia ser a única saída para a situação criada pelo esbulho praticado pelos anteriores governos, mas este governo parece hesitar na decisão a tomar.

Diz o ministro que é preciso ouvir “todas as partes”, avaliar a qualidade do serviço prestado e não tomar decisões precipitadas.

Entretanto a administração dos CTT precipita-se no encerramento de postos e no despedimento de trabalhadores.

Espero que a audição não seja feita por carta porque, como as coisas estão, quando acabarem as audições já não há serviço de correios para passar para a gestão pública e o Estado irá apenas constituir-se como comissão liquidatária.

Até para a semana

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