Da Camisola ao Cego do Maio

Crónica de Opinião
Terça-feira, 30 Março 2021
Da Camisola ao Cego do Maio
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Eis senão quando, os que se alimentam do orgulho nacional vertido sobretudo em símbolos que representam o País, encontraram mais um que, quase de certezinha, 80% não reconheceria se o visse à venda numa loja ou banca de contrafacção. Talvez no Alentejo se conheça ao detalhe o design em camisolas poveiras, tanto quanto no Douro Litoral se saiba exactamente o que são safões. Mas adiante, que isto não é um concurso entre regiões, que pedem meças para estarem no topo de uma pirâmide de maravilhas, alimentando uma meia-dúzia de empreendedores que promovem o concurso, em troca de uma sede constante de outra meia-dúzia em ser o mais defensor do seu lugar.
Parece-me que o assunto do desmascarar a estilista norte-americana com trejeitos “made In China”, e que aldrabou o mundo da moda, fez mais pela camisola do que qualquer outra entidade nacional até agora. Mas foi, também, a oportunidade perdida de percebermos como a amada tradição cultural funciona. Aproveitar-se-ia para que a má moeda, já agora, pusesse a circular a boa, o que, enfim, deixa sempre alguns mais lesados pelo meio.
Poderíamos todos ter, por exemplo, ficado a conhecer, ou talvez a conhecer melhor, o Cego do Maio que, no século XIX, provavelmente teria mais do que uma versão dessas camisolas que dizem existir há mais de 150 anos. O Cego do Maio, figura pública que tem direito a estatuária e azulejaria sua na Póvoa do Varzim, foi pescador que salvou vidas e reconhecido por isso em louvores vários e até uma condecoração régia de que se conta um episódio comovente.
Ora, era também prática que as famílias dos pescadores se identificassem e distinguissem umas das outras através de símbolos, as chamadas “marcas familiares”, que assinalavam a propriedade de vários pertences. Curiosamente, estas marcas estão estilizadas nas ditas camisolas de lã grossa, vítimas agora, e de acordo com o vocabulário pop, apropriação cultural. Convém, no entanto, perceber-se que as marcas não nasceram na Póvoa de Varzim. Têm origens talvez celtas, mas certamente de culturas mais a norte do que A-Ver-o-Mar e muito para lá do rio Minho. Pois é, a Cultura tem destas coisas. Se é para respeitar tradições, que se respeitem os processos tradicionais e as várias contaminações que lhe são próprias. Se é para jogarmos o jogo da sociedade de consumo, assuma-se que o assunto é verba e não se gaste o verbo com outras meias-conversas.
Já agora, tendo as minhas raízes em Vila do Conde, terra eterna rival da cidade que é tema desta crónica, não queria deixar de dizer que a rivalidade está em mim ultrapassada (era o que mais faltava alimentar ou, pior, alimentar-me destas guerrilhas paroquianas!). E faço questão de destacar que, ao contrário do que muitos ainda pensam, a cidade se chama Póvoa de Varzim, e não “do Varzim”. É que os lugares não são só representados por clubes, e defendidos com o mesmo espírito que, normalmente é pertença da cultura do futebol.
Até para semana.

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