De-bate-em-bate

Crónica de Opinião
Terça-feira, 24 Novembro 2020
De-bate-em-bate
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Começaram as entrevistas com os anunciados candidatos às próximas eleições, prenúncio de debates. Se os debates fazem parte de uma regra do processo eleitoral, estas entrevistas surgem como aperitivos que os órgãos de comunicação social (CS) servem. Servem a si próprios, aos potenciais candidatos e, por último, aos eleitores ainda mascarados de estimável público.
A mais badalada foi a entrevista de há uma semana, feita por Sousa Tavares a Ventura. Tratou-se de um exercício aplicado do conhecido enunciado aforístico, feito do saber com experiência em imaginar cenas de espectáculo de Bernard Shaw. É o enunciado que diz: «Nunca lutes com um porco. Primeiro, porque ficas sempre sujo e, segundo, porque o porco gosta.».
Só a vi depois de ler vários comentários que lhe foram feitos. E até piadas proféticas, das que prevêem o que se seguirá transformando fraquezas ou controvérsias em motivo de gozo. Às entrevistas que se seguirão aplicarei o mesmo método (ouvir sobre e depois ver), pois é o que me dá mais algum entusiasmo para assistir a esta espécie de sessões de pugilato verborraico. Fico preparada para o que vou.
Mas mesmo tendo-a saboreado requentada, ao assistir e falar agora da entrevista, servi-me daquele aperitivo e ajudo a dá-lo ao canal de televisão. É assim que funciona o negócio da CS – visualizações e partilhas – e sem o qual a Democracia resistiria muito mais dificilmente como sistema. E é, por isso, que lhes devemos exigir tanto, à CS, como aos que exercem poderes executivos, políticos e judiciais.
O que aprendemos com aquela entrevista é que não vale a pena tentar-se descer ao nível do interlocutor. É que mesmo que a raiva puxe pela tentação de ir até àquele lado do ringue, a habilidade está em entender a linguagem mas não ceder à tentação de a usar. Vamos ver quantos são os jornalistas que vão conseguir trazer para a seriedade do cargo a que concorrem os entrevistados. Dar a perceber quais os que apenas ali estão muito menos pelo interesse público, do que pela chico-espertice própria dos fura-vidas.
Certo é que uma outra entrevista dada, há um par de semanas, pelo ainda Presidente e expectavelmente futuro candidato ao mesmo cargo, não serviu propriamente de exemplo, cheia de atropelos, ultrapassagens e “borrifanço” olímpico ao entrevistador. A menos que fosse um treino para debates futuros, o que não me deixa mais tranquila quanto ao nível dos mesmos. Jornalistas, ponham-se em guarda, que a Democracia convoca-vos.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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