De Cabul a Odemira

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 23 Agosto 2021
De Cabul a Odemira
  • Alberto Magalhães

A semana no mundo foi dominada pela chegada dos talibãs a Cabul. Os ‘especialistas’ previam-na para daqui a um mês. As imagens que nos chegam são demasiado parecidas às de Saigão, em 1975. O caos e o desespero de quem antecipa a ausência de futuro e não acredita na adesão dos bárbaros à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Joe Biden bem pode tentar lavar as mãos e culpar os afegãos.

Mesmo dando de barato que a retirada era inevitável e que o tribalismo continuará, naquelas bandas, a opor-se à democracia por muitas décadas mais, a inépcia como tudo foi feito mancha – e de que maneira – a credibilidade dos EUA e da NATO. Em vez de uma evacuação atempada, ordenada e segura dos colaboradores afegãos, com a contenção militar dos talibãs, foi o abandono precipitado do terreno, entregue aos radicais islâmicos.

Ainda não ouvi a ala esquerda do partido Democrata americano, toda #metoo e igualdade de género, pronunciar-se sobre o futuro das mulheres afegãs. Ainda não percebi o que andaram as tropas aliadas a fazer durante 20 anos, se nem sequer foram capazes de antecipar a inoperância do exército regular afegão mal lhe faltasse o apoio ocidental. Esperam-se as maiores desgraças nos tempos vindouros e, claro, mais uma crise migratória para a Europa.

A nível interno, a pandemia continuou a marcar-nos o quotidiano e ontem a primeira-ministra em exercício, Vieira da Silva, informou-nos que na segunda-feira deixamos de estar em estado de calamidade e passamos a estar apenas em contingência, o que é uma coisa muito boa pois, no interior ‘daquilo que são’ os restaurantes (deixem-me brincar), em vez de seis à mesa poderemos ser oito e nas esplanadas, viva o luxo, em vez de 10 poderemos ser 15. Já os transportes públicos, voltarão à normalidade, ou seja, poderemos andar ao molho.

Também tivemos por cá os já tradicionais fogos de Verão, cujas causas e consequências estão mais que estudadas e repisadas, mas que agora passaram a ser atribuídos sobretudo às alterações climáticas. Que o país continue, em grande parte do seu território, um matagal informe e improdutivo, com proprietários desconhecidos e absentistas, parece não dar cuidados a ninguém, nem mesmo aos candidatos a governar autarquias que são autênticos barris de pólvora. Enfim, é Portugal.

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