De regresso

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 04 Fevereiro 2021
De regresso
  • Eduardo Luciano

 

 

Depois de um internamento de dezasseis dias com passagem de uma parte desses dias pelos cuidados intensivos, era inevitável que esta crónica reflectisse essa experiência.

Não me apetece falar de sofrimento ou de superação pessoal, porque entendo não fazer sentido tornar público algo que apenas cada uma das pessoas que passaram experiência poderá avaliar o impacto em si próprio.

Deixem-me dizer que estive em vários sítios, das enfermarias à UCI e à Estrutura Municipal de Apoio e é transversal a todos estes locais uma dedicação, empenho, profissionalismo, capacidade de entrega e empatia com os que estão em situação de grande vulnerabilidade que, apesar de falarmos muito sobre o assunto, só vivendo é possível medir.

Desculpem-me se não vos falo do que que habitualmente consideramos actos médicos ou cuidados de enfermagem e vos fale de olhares que significam um acreditar em não entubar já, em apostar em fazer a barba ao doente, ainda que em plena UCI, por achar que também isso é importante na recuperação, em ler em voz alta uma mensagem de amor enviada para o tablet de serviço por quem estava em casa a sofrer, a mão que fica por momentos no ombro após uma qualquer intervenção, os mil cuidados com que é feita a higiene pessoal a quem está deitado numa cama.

Permitam-me que vos fale do auxiliar, de nacionalidade brasileira, que em plena UCI me encosta o seu telefone ao ouvido para que ouvíssemos os dois a Garota de Ipanema. Para ele foi mitigar saudades da sua cidade e do filho que lá ficou, para mim foi qualquer coisa que ainda não consigo descrever, mas que reputo de muito importante na luta para superar o que estava a viver.

Que dizer das pessoas todas que se mobilizaram para que me aparecesse nas mãos um livro que estava na minha mochila, que tinha ficado na enfermaria, e que ajudou a que os longos dias na UCI fossem mais suportáveis.

Como avaliar a jovem médica leitora que, enquanto realizava os procedimentos médicos que tinha de realizar, me perguntou que livro estava a ler e me pôs falar sobre a guerra dos trinta anos e um bobo que habitou a Europa Central no século XVII e que depois de eu regressar à enfermaria me visitou e se apresentou: “sou eu, a Mariana dos livros”.

Quem me conhece sabe que sou um homem de pormenores e dirá que estou a sobrevalorizar a normalidade, mas neste mundo que vivemos tendemos a esquecer que a normalidade é esta capacidade de entrega, não ao doente, mas ao ser humano que ali está fragilizado.

Banalizamos demais o que temos e estas experiências levam-nos a perceber a importância do que nos habituámos a considerar comum e até vulgar.

Imaginem que chorei de emoção quando, após muitos dias de dieta pastosa, abro a embalagem de alumínio e vejo uma posta de peixe que me soube melhor que o melhor dos pitéus que já comi.

Uma palavra para todos (foram mesmo muitos) que por todas as formas que encontraram manifestaram o seu apoio, solidariedade e preocupação. Talvez não consigam perceber como importantes e decisivas essas manifestações foram para mim e para minha companheira em todas as fases deste processo.

Estou de volta, ainda frágil fisicamente, mas ainda mais determinado em continuar a dar o meu contributo para as lutas que aí vêm e que iremos certamente vencer.

Um bocadinho mais lamechas mas que ninguém confunda tal coisa com fragilidade.

Obrigado, muito obrigado

Até para a semana

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