Desatualizar rendimentos

Sexta-feira, 23 Setembro 2022
Desatualizar rendimentos

 

A atualização das pensões tem sido, de entre todas as medidas divulgadas pelo Executivo, aquela que tem gerado maior controvérsia.

Desde logo porque sempre foi dito pelo primeiro-ministro que o Governo iria aplicar a fórmula prevista na lei para atualização das pensões, e sempre tal foi referido com uma certeza, pelo que não seria de esperar nada em contrário.

Contudo, aquando da apresentação do pacote de medidas o Governo decidiu antecipar meia pensão este ano, em 2022, e pagar a outra metade do aumento que os reformados teriam direito em 2023.

Matou dois coelhos com uma cajadada. Parecia assim que estava a dar um apoio adicional aos reformados em 2022, e reduzir o montante dos aumentos a pagar em 2023, reduzindo os seus efeitos em futuros aumentos em 2024 e nos anos seguintes.

O problema foi prometer o que se sabia de antemão que não poderia ser cumprido.

Se os vencimentos não podem crescer ao ritmo que cresce a inflação, as pensões, por maioria de razão, também terão limitações.

António Costa sempre o disse, que as remunerações não poderiam acompanhar o ritmo de crescimento da inflação.

Aos pensionistas disse o contrário, disse que o Governo iria cumprir exatamente aquilo que a lei estipulava.  Só que arranjou uma artimanha para não o fazer. E é por isso que criou uma indignação geral.

Falar agora em alterar a lei é tarde, pois deveria ter começado por aí. Era a forma séria de encarar o problema. Mas não o fez. E não o fez porque estão em causa dois milhões de votos. Foi essa a razão. Não outra.

Também com a inflação foi empurrando até que foi possível. Primeiro era apenas algo com efeitos transitórios limitados, depois passou a ser algo com que se teria que contar pelas suas consequências, agora é um problema que afeta transversalmente toda a economia.

É sempre assim, primeiro aparecem os sinais, mais tarde os efeitos. O ano de 2021 foi de sinal, a inflação começou a manifestar-se. Em 2022 agravou-se e começaram a sentir-se os efeitos, ainda que de alguma forma limitados, os aumentos dos preços estiveram em crescendo, os efeitos da subida das taxas de juro começaram a ser sentidos, mas foram os efeitos do aumento da energia que verdadeiramente são sentidos em 2022.

Muito provavelmente porque o cenário económico para 2023 será adverso é que o Governo não quer falar dele.

Tudo aponta para que a economia portuguesa sofra uma contração em 2023, que a taxa de inflação, ainda que reduza relativamente a 2022, manter-se-á muito acima da taxa que o BCE entende como a adequada (2 %), afetando sobremaneira os créditos.

São sinais que os tempos favoráveis estão a terminar. Que a quebra do poder de compra ficará bem mais visível e que todos iremos perder rendimento. Todos, inclusive os reformados.

 

Até para a semana

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