Desconfinamento discricionário?

Nota à la Minuta
Terça-feira, 09 Junho 2020
Desconfinamento discricionário?
  • Alberto Magalhães

 

 

Como era de prever, cada vez mais pessoas, a pouco e pouco, vão aproveitando as excepções e os maus exemplos, permitidos ou mesmo estimulados pelas autoridades, para justificarem os seus comportamentos mais arriscados, em termos de pandemia. A falta de coerência de algumas decisões, ou ausência delas, torna-se cada vez mais visível e exasperante, sobretudo para os que se sentem injustamente discriminados sem razão aparente.

As manifestações da CGTP no 1º de Maio, na Alameda, e do PCP, este fim-de-semana, no Parque Eduardo VII, para além da ostentação, para as câmaras das televisões, de uma disciplina coreográfica que lembra, fatalmente, os desfiles na União Soviética, na China ou na Coreia do Norte, tentam escamotear o convívio, bem menos disciplinado, dos momentos anterior e posterior à exibição.

Permite-se, e eu pessoalmente não discordo, que as companhias aéreas transportem passageiros colados uns aos outros, salientando a obrigação de usarem máscaras. Mas nos cinemas e teatros, impõe-se uma redução substancial da lotação, mesmo com máscara. Competições desportivas sem público, mesmo que mascarado; bares fechados, sem abertura à vista, substituídos por bares ilegais, como no tempo da Lei Seca (ou da lei s[é]ca), aumentam a sensação de uma discricionariedade capaz de minar o reconhecimento da autoridade.

Entre a malta da esquerda menos ponderada (viu-se nas manifestações de sábado, contra o racismo), anda a crescer a ideia de que, se na praia é preciso cumprir as regras, já para defender grandes causas, vale a pena arriscar com o coronavírus. Talvez, até porque os mais novos não arriscam grande coisa. Quando muito infectam pais e avós, que poderão até sentir uma enorme honra em finar-se por uma nobre causa.

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