Desigualdades

Segunda-feira, 30 Maio 2022
Desigualdades

 

Terminou a semana passada em Davos mais uma reunião do Fórum Economico Mundial. Desde 1971 que chefes de governo, líderes políticos e das grandes empresas e grupos económicos e intelectuais de renome, se juntam na cidade suíça de Davos para discutir a situação da economia global, o desenvolvimento e, claro está, os impactos das alterações climáticas. Dirão que procuram linhas de solução para os grandes problemas da globalização, mas eu, à distancia de muitos milhões de euros, direi que mais não é que ver os ricos a falar de e para si próprios.

Estes últimos dois anos em que o mundo tem estado a braços com a pandemia de Covid 19, a crise económica fez aumentar de tal forma os lucros das grandes empresas dos sectores da energia, farmacêutica e da alimentação que, segundo o relatório apresentado em Davos pela OXFAM, em 24 meses o número de muito ricos aumentou tanto como nos últimos 23 anos. Surgiram 573 novos multimilionários, ou seja, a cada 30 horas alguém se tornou multimilionário. Em contrapartida estima-se que só este ano mais 263 milhões de pessoas caiam na pobreza extrema, ou seja, 1 milhão de novos pobres extremos a cada 33 horas.

Este quase paralelo bem demonstra como os lucros excessivos em sectores cruciais têm crescido e que tal acontece à custa de regimes fiscais muito favoráveis, à custa das vacinas para a Covid 19, cujas patentes os governos não quiseram suspender e à custa do empobrecimento das classes trabalhadoras, que têm visto um retrocesso nos direitos laborais, salários baixos e são cada vez mais precarizadas, e que face ao aumento descontrolado dos preços tem, cada vez mais, grandes dificuldades em fazer face ao custo de vida.

Um facto singular marcou este ano o Fórum: um grupo de multimilionários presentes em Davos saiu à rua, juntamente com manifestantes de esquerda, pedindo aos Governos que lhes aumentassem os impostos e fez a entrega a todos os participantes de uma carta aberta subscrita já em Janeiro por mais de 150 multimilionários de vários países a pedir que os taxassem mais, por reconhecerem a desproporção da sua riqueza face a quem trabalha.

Também em Portugal tem crescido a riqueza dos mais ricos. Aumentam os lucros das cadeias de alimentação e das petrolíferas de forma extraordinária. E aumentam ainda mais os salários dos CEO.

Mas por cá os patrões não defendem o aumento da sua taxação, pelo contrário, pedem isenções, abaixamento dos impostos, pedem que os salários não aumentem e que, em contrapartida, aumente da precariedade dos trabalhadores.

Face ao aumento tão gritante da pobreza e das desigualdades, cada Governo tem de optar por um de dois caminhos: ou defende os cidadãos do abuso que é o aumento injustificado dos preços da energia e da alimentação, controlando preços máximos e taxando os lucros excessivos, ou continua a proteger as empresas e os mais ricos e as suas práticas anti-sociais.

Taxar os lucros excessivos é recomendado já por organizações internacionais como a OCDE e está a ser adoptado em vários países, incluindo os mais liberais como a Hungria ou o Reino Unido.

Esta semana que passou o PS aprovou o seu orçamento de Estado para 2022. E se o ano passado ele já era um mau orçamento, agora que a inflação disparou é um ainda pior orçamento, que impõe aos trabalhadores e pensionistas uma forte redução de rendimentos.

Este era o momento para o PS seguir o caminho de outros governos europeus, mas mais uma vez o PS voltou as costas à introdução de uma taxa sobre os lucros excessivos das grandes empresas, o que lhe permitiria reforçar os apoios sociais. O PS fez uma escolha e escolheu manter-se do lado dos mais ricos.

Mas para falar verdade, não é nada que me espante.

Até para a semana.

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