Dia das Crianças

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 01 Junho 2020
Dia das Crianças
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Hoje é o Dia das Crianças. Foi celebrado pela primeira vez em 1925 em Genebra durante a Conferência Mundial para o Bem-estar da Criança, e em 1950 as Nações Unidas assinalaram este dia inicialmente como Dia Internacional da Protecção das Crianças.

Quase um século passado seria bom que este fosse um dia feliz para todas as meninas e meninos, independentemente da sua origem, género, cor ou classe social. Mas se há coisa que temos de reconhecer é que o Mundo está cada vez mais difícil para as crianças.

A pobreza infantil é um flagelo que afecta mais as crianças que os adultos e os idosos e no início deste ano em Portugal a pobreza afectava cerca de 330.000 crianças.

É uma realidade que, apesar dos níveis de rendimento elevados face a outras partes do mundo, atravessa a União Europeia: 1 em cada 4 crianças europeias está em risco de pobreza.

Estes são números que nos deviam abalar a todos e que seguramente já cresceram nestes três meses que levamos de pandemia de COVID 19, durante os quais a perda de rendimentos e o desemprego afectaram milhares e milhares de trabalhadores e pequenos empresários e, naturalmente, as suas/nossas crianças.

Aliás, a UNICEF estima que ao nível mundial este ano mais 86 milhões de crianças sejam afectadas pela pobreza, ou seja mais 15% que em 2019, totalizando os 672 milhões de crianças pobres, das quais 2/3 das vivendo na África subsaariana e no sul da Ásia.

Os impactos desta pandemia está a afectar-nos a todos, mas são provavelmente muito profundos e duradouros nas crianças e, por isso, mais preocupantes. Não sabemos até que ponto o confinamento, às vezes em habitações mínimas e sem condições, e o afastamento físico induzido pela pandemia, as dificuldades financeiras das famílias, e o próprio medo da doença afectam e afectarão no futuro as crianças, quais as marcas que deixam e quais os impactos que têm em termos de saúde mental.

Mas sabemos que o confinamento em casa veio potenciar os riscos de aumento da violência doméstica, afectando directa e indirectamente as crianças, dos maus tratos a que são muitas vezes sujeitas, e até de abuso sexual de que são vitimas perpetrado por pessoas próximas, muitas vezes familiares. Isoladas, longe de outros adultos que possam aperceber-se da sua situação ou a quem possam queixar-se, as crianças ficam entregues aos seus agressores, mais desprotegidas ainda em tempo de pandemia.

Também o encerramento das escolas veio agravar a situação de carência alimentar em que muitos miúdos se encontram e a substituição da escola por aulas pela via digital e pela televisão, veio agravar a exclusão de muitas crianças de famílias mais desfavorecidas, privadas não apenas de equipamentos informáticos mas do apoio familiar, sem pais com conhecimentos que lhes permitam apoiar os filhos.

Por tudo isto, neste tempo em que as desigualdades sociais se tornam mais evidentes e as crianças são mais vulneráveis, não basta dizer que as crianças são o nosso futuro e menos ainda, a cada ano, limitar-se a assinalar este dia com actividades lúdicas ou guloseimas. É obrigação de todos cuidar das nossas crianças, mas agora mais que nunca preciso que o Estado e também as autarquias assumam a responsabilidade de criar respostas sociais e garantir apoios específicos para as crianças, de forma a que possam crescer com uma alimentação adequada, cuidados de saúde, educação de qualidade e uma habitação condigna, e também espaço público onde andem e brinquem em segurança para que possam desenvolver-se plenamente.

Até para a semana.

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