Dignidade e Bem-estar

Crónica de Opinião
Quarta-feira, 18 Janeiro 2023
Dignidade e Bem-estar
  • Maria Paula Pita

Na passada semana, Évora foi notícia, nos jornais nacionais, por um motivo ignóbil.

Não vou discorrer sobre a veracidade da notícia, mas é patente a forma como os idosos são tratados pela nossa sociedade. Reflexo da decadência da sociedade, mostra a anomia que a caracteriza. Sente-se, cada vez mais, a ausência de normas morais e sociais que, claramente, distingam o certo do errado. Encontramo-nos numa fase de profunda crise de consciência, onde as referências morais sólidas tendem a desaparecer.

Uma sociedade que se preocupa mais com o parecer, do que com o SER, onde a procura incessante da juventude eterna, em parecer cada vez mais jovem, o envelhecimento é rejeitado. As alterações físicas são combatidas com procedimentos estéticos que transformam homens e mulheres em bonecos com boca de pato e bochechas repuxadas e brilhantes, enquanto que o envelhecimento é encarado como uma perda, uma ruptura com os padrões instituídos, como sinónimo de incapaz e ultrapassado. Para muitos, a velhice e o idoso são vistos como um estorvo. O seu legado é desprezado e, por isso, muitos são abandonados à sua sorte ou despejados em lares, onde são vistos e tratados como fonte de rendimento e não como um património de saber e de vivências que deve ser acarinhado e respeitado.

A Organização das Nações Unidas, em 1991, tendo consciência do envelhecimento da população nos países ditos desenvolvidos, publicou uma resolução em que consta os Princípios das Nações Unidas para as Pessoas Idosas:

– Os idosos devem ter a possibilidade de viver com dignidade e segurança, sem serem explorados ou maltratados física ou mentalmente;

– Os idosos devem ser tratados de forma justa, independentemente da sua idade, género, origem racial ou étnica, deficiência ou outra condição, e ser valorizados independentemente da sua contribuição económica.

Portugal tem cerca de 2 424 122 pessoas com mais de 65 anos, representando cerca de 23,4% da população, a que acresce uma redução significativa de crianças e jovens, que atualmente representam 12,9% do total da população. Este duplo envelhecimento é sentido particularmente no Alentejo que apresenta um dos valores mais elevados de envelhecimento com 219 idosos por cada 100 jovens.

Se tivermos em consideração que a pensão social por velhice não chega aos 300€ e a pensão média de velhice, no regime geral, é à volta dos 500€, estão reunidas as condições que propiciam o abandono e a violência dos mais velhos.

A velhice é uma inevitabilidade para todos. Temos a possibilidade de propiciar um tempo final mais aprazível e acompanhado ou então manter o clima de terror a que muitos estão sujeitos nos últimos dias da sua vida.

A forma como são tratados os mais vulneráveis determina o futuro de um país.

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